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Categoria - Outras histórias Crenças, amigos e “diferenças iguais” Autor(a): Carlos Fatorelli - Conheça esse autor
História publicada em 13/05/2014
Engraçado que as crianças não se separam com coisas que normalmente separam os adultos. Assim íamos aos cultos, missas, passes, mesa espiritual e outros não iam a nada, eram “ateus graças a Deus”. Nossa virtude era respeitar cada qual em sua diversidade. A normalidade das famílias estava no modo de vida religiosa de cada uma, mas isso nunca nos separou, quando no tempo de nossa meninice.
 
Um guardava o sábado, outro o domingo com uma doutrina própria. Outros tinham um mantra, eram “zens”, não tinham muitas ligações tipo “religare” entre céu e terra, nada os atormentava, o mundo girava e eles giravam com o mundo, nada os tirava de seus propósitos.
 
As ideologias não nos importunavam, tipo de governo não nos atingia, afinal, quem resolvia todas as cargas dessas coisas humanas eram nossos pais. Uma vez escutei falar que o “homem era um ser religioso”, daí fiquei a observar os pássaros, os gatos, cachorros e lembrei-me da passagem que “cada pássaro era alimentado por quem havia criado todos eles” e ficava pensando: não tem “igreja de bicho” e porque eles não oravam?...
 
Achava engraçado meus amigos não irem à missa, e perguntava por que eles não vinham “conversar com Deus” e meu pai em sua sapiência e tranquilidade explicava que eles iam para outro lugar onde também estava Deus! “Puxa”, era coisa do Espírito Santo mesmo, que o “Mais Poderoso Ente Criador” podia estar em vários lugares ao mesmo tempo. Minha família era pequena e meu pai às vezes era convidado para assistir ao culto em outra crença, ele era inteiramente ecumênico e não ligava com a fiscalização do tipo “isso é pecado”, e lá ia meu velho ver outros falarem aquilo que ele escutava de outro jeito.
 
Meu pai morou na igreja de São Dimas, na Igreja do “Bom Ladrão”, na Vila Nova Conceição, quando lá era um barracão e se chamava Nossa Senhora da Graça. Veio para a capital paulista de “mala e cuia” em peregrinação lá do interior de Catanduva, Taquaritinga, São Carlos e “aportando” em São Paulo. Parece que ele com mais outros “migrantes”, como os irmãos Valente, o Abel Costa sempre estiveram presentes em tudo que fosse relacionado àquela paróquia. Engraçado, o Dimas, o “bom ladrão”, foi dependurado ao lado de Jesus, coisa antiga isso de querer aquilo que pertence a outrem, havia dois “salteadores”, só que um teve arrependimento.
 
Um dia “levantamos ancora” e fomos para Santo Amaro, mais precisamente no Jardim São Luiz, e a capela era uma tapera, uma minúscula capelinha consagrada a São Luís Gonzaga, que “quando entrava o padre saia o Santo e quando entrava o Santo saia o padre”!
 
Meus amigos também estavam na missão de “construir a casa de Deus”, eu achava estranho, pois minha mãe falava que Deus “morava no céu”, por que ele tinha que ter tantas casas com tantos nomes diferentes na Terra?
 
Nós crianças de várias crenças nos dávamos muito bem uns com os outros, embora houvesse essa diferença “que não era tão diferente”, pois respirávamos o mesmo ar, iluminava-nos o mesmo sol e a chuva molhava a todos, sem exceção. Nossa atividade lúdica principal era o futebol e jogávamos no mesmo campo, sem divisões, e só nos separávamos nos fins de semana, cada qual para um lado, “cada ovelha com seu pastor”.
 
Um hospital também parece à casa de Deus, pois cada um com sua crença, no leito, falam em nome de Deus que deve nos proteger de todos os males, nos iluminar. Uns dizem dos espíritos de luz, outros do advento, outros proclamam por Bíblias escritas por homens fervorosos, com um versículo determinado que às vezes “inculca quem está no leito” e até o ateu acredita que o moribundo, nem tanto assim, ressurgiria para a vida e sairia dessa para uma melhor.
 
Mas quando arrebentei a perna e “fiquei de molho” eu não sabia se aquilo era para eu ficar “aqui” ou “ir para a glória eterna”! Tanto pediram em nome de um poder maior do que nossas vontades, que estou aqui escrevendo mais uma “grande aventura” chamada vida. Amém!
 
E-mail: cafatorelli@gmail.com
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Publicado em 14/05/2014

Pena que criança um dia cresce e esquece essa relação de amizade, mas muitos crescem e mantem essa atitude de respeito e neutralidade em relação aos outros credos e o Brasil ainda bem que é um pais laico e só juizo final que vale, muitop bom, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 14/05/2014

todas as religiões nos leva a uma so crença DEUS,

Enviado por João Cláudio Capasso - jccapasso2@hotmail.com
Publicado em 14/05/2014

Realmente, Carlos, vc retratou muito bem o que ocorria conosco, crianças com relação a isso. Havia uma família que eram adeptos do Alan Kardec (não posso falar nesse nome, traira do meu Palmeiras...) e seus filhos, meus amiguinhos, nem ligavam pra isso. Outros indiferentes, libaneses, japoneses e por ai a fora. Descrito com muito cuidado, numa paisagem infantil que tem sua existência voltada, todinha pra folguedos e mais nada. Parabéns, Fatorelli.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 13/05/2014

Carlos, a inocência das crianças deveria servir de exemplo para nós, adultos que as vezes fazemos discriminações inúteis, cada um com sua fé, afinal todos os caminhos nos levam à Deus não importa qual deles escolhemos, parabéns por seu texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 13/05/2014

Carlão - Muito lindo, alias maravilhoso - Amem ...

Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
Publicado em 13/05/2014

Que bom que você ficou por aqui mesmo Fatorelli, escrevendo essas historias gostosas de ler e saborear no Site. E acho que você tem toda a razão. E se alguém um dia me perguntar Qual é a religião de Deus, eu hoje diria que é aquela que ajuda alguém a se tornar melhor, mais irmão, mais humilde e mais sincero nesse mundo. Parabéns

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 13/05/2014

Lindo, Carlos. Eu me lembro de não ter problemas dessa natureza. E ainda gostava de saber das outras crenças. Parabéns pelo relato e um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
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