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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Eu criança, Bixiga, Ruy Barbosa, 468, pessoas, lembranças Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 26/05/2014
Minhas lembranças da primeira infância, as primeiras:
 
Meu pai, brincando comigo, acabou por quebrar meu braço direito; eu teria meus quatro ou cinco anos e fiquei muito tempo em tratamento: gesso, medicação para dor.
 
Lembro-me de estar deitado de barriga para cima, lembro-me bem porque estava olhando para a lâmpada acesa, pendurada no forro de madeira, o soquete na ponta de um fio sujo de fezes de mosquitos. Abro e fecho os olhos, abro e fecho os olhos, vejo tudo vermelho sanguíneo e o filamento da lâmpada brilha atrás de minhas pálpebras, dança para lá e para cá enquanto vai fenecendo, enfraquecendo aos poucos. Abro e fecho os olhos...
- Que tanto que você pisca, menino! “Tá” com dor de olho?
- Não, mãe! Eu acho que enxergo com os olhos fechados!
- Deixa de falar bobagem. A gente não brinca com os olhos, pode ficar vesgo, pode ficar cego... Para com isso, que Deus castiga!
 
Faz muito calor, a noite é quente e tem o barulho dos bondes subindo e descendo a Brigadeiro. “Tuf tuf tuf” dos poucos carros movidos a carvão e a gasogênio que desafiam a lei do blecaute, lanternas acesas, rodando com sua flatulência automobilística pela Rua Pedroso, ligação em linha reta da Vergueiro até a Ruy Barbosa.
 
“Prííí”! O Inspetor de Quarteirão apitando, mas não adianta! Quem tem carro, tem carro, “ué”! Os carros são de gente rica da Paulista, da Rua dos Ingleses, ingleses e franco-canadenses do Gasômetro e da Light, pode apitar até se esgoelar que não adianta. Além do mais os tedescos não vão bombardear São Paulo, que besteira, só se os “quinta coluna”, os da “shindô remei”...
 
Época da guerra, o Primeiro Escalão da FEB já deveria estar em Nápoles: Othelo, ilustre morador do Bixiga, filho de D. Maria Galvão, cantor e depois herói medalhado pelos americanos, mulato de olhos verdes que falava italiano perfeitamente, já deveria estar cortando corações de napolitanas mil... Farta distribuição do chocolate Diamante Negro, goiabada em pedaços, cigarros Marusca, Yolanda e Fulgor, sorrisos, violões e samba: "nunca vi fazer tanta exigência, nem fazer o que você me faz, ai, ai, meu Deus, que saudades da Amélia...", fogueiras na neve, verde-oliva, a cobra vai fumar, senta a pua!
 
Além da dor, minha pele coça, mas não posso fazer nada com esse braço encanado; amanhã minha mãe vai me levar no P. S. Central lá no Largo do Tesouro para retirar o gesso; meu pai deixou 1.000$000 réis para o bonde e para comprar uma maçã, fruta que eu nunca tinha comido embora preferisse a laranja descascada em uma espécie de torninho à manivela preso em um lado da carrocinha de frutas, eu achava cutuba! Não gostei da maçã, mas minha mãe me ajudou a comer depois, "tem de comer, não pode jogar fora... Já se viu uma coisa dessas?". Fomos a pé debaixo de uma garoa fria.
 
Estou nu, banho tomado. Pijama. Agora dormir que amanhã é dia!
 
O gesso retirado, fiquei sem sentir meu braço durante algum tempo. Desde então sou canhoto. Gauche? “Oui, un petit peu, mes amies”...
 
Da Rua Pedroso mudamos para a Vergueiro, quarto e cozinha ao lado do cine Paulistano e depois para a Ruy Barbosa, 468, a rua do bonde, do vilão, do Cine Rex, dos fundos do Espéria, das carvoarias, da quitanda (Seu Jorge, essa laranja é doce?), da farmácia, do telefone do ponto de táxi, 200 réis a ligação (5-2191, ramal 45, por favor...)
 
Saudades? É! Tenho saudade, sim! E daí?
 
Portão enorme de madeira de lei. Doze degraus subindo da calçada até o quarto do senhor Edmundo, alfaiate com atelier na esquina com a Fortaleza, em frente ao ponto do bonde. Quatro degraus descendo e estamos dentro do cortiço do Seu Peppino, "uomo" que usava boné de um couro muito fino, colete, calça de veludo preto, palrador de um “portuliano” incompreensível para os não habitantes da república do Bixiga, cabelos brancos, pele cor de rosa...
 
O pátio do cortiço é um largo corredor a céu aberto com quartos, um frente ao outro, uma letra "U" invertida, assim era o cortiço, deu para entender, não é?
 
D. Sebastiana era mãe do Ditinho e da Cinica e trabalhava como cozinheira dos Maluf; fazia as melhores balas de café que eu jamais provei em toda minha vida. Morreu com um balaço que despedaçou sua cabeça...
 
Recém-saído da cadeia, o Tininho matou o pai com um único tiro, a bala atravessando seu corpo, o pátio e a janela de D. Sebastiana, terminando por matá-la. Duas tragédias na mesma fração de segundo, uma única bala, primeira página no tabloide "A Hora".
 
O Ditinho, filho de D. Sebastiana, tuberculoso, era cuidado pelas mulheres da vila porque mãe e irmã precisavam trabalhar; minha mãe e D. Lidia, filha de D. Maria Galvão, estavam assistindo o Ditinho quando de sua morte; tuberculoso também era o alfaiate Edmundo que morava com a irmã, D. Wanda, costureira, arrematadeira e passadeira de calças; D. Maria Preta cuidava do marido e de um sobrinho, ambos com a doença; o Roberto, filho de D. Maria Galvão e irmão do Othelo, acabou morrendo em Campos do Jordão.
 
O ônibus do Clemente Ferreira a cada dois anos passava para colher escarro, raio-X e vacinar com o BCG, mas as pessoas fugiam como o Satanás fugia da hóstia consagrada, "num tenho tempo", "dispois eu vou lá na Consolação, agora eu num posso, tô misturada, fais mar tomá a vacina"...
 
Ah! Bixiga, Bixiga...
 
D. Luzia, apesar de amasiada com o seu Manoel, um português de tamancos e camiseta, mantinha luto fechado pela morte do marido, de tifo, nem bem tinham chegado da Itália: vestia-se toda de preto e tinha a tal de verruga de bruxa no nariz; mãe do Jamico, famoso por abrir garrafas de cerveja à dentadas, D. Luzia preparava conservas em barris de madeira, molignana, sardella...
 
D. Nazareth, negra velhíssima, sete saias que roçavam o chão, nascida ainda no tempo do cativeiro, o século XIX vigendo no século XX; Nazareth passava o ano todo costurando a fantasia de Carnaval para o Edson, seu filho, um senhor de cabelos brancos que saia no cordão do Vai-Vai. Costurava a mão e sempre me pedia para passar a linha no buraco da agulha, "num tô inxergâno quaji nada, sinhozinho...".
 
Eram três os dormitórios/ lares que ficavam no fundo do pátio, o 3, o 4 e o 5; no 3 morava D. Maria Galvão, italiana de Vicenza, mãe de filhos mulatos e que fora casada com um negro. D. Maria cuidava do Roberto, antigo leão da várzea do Bixiga e que estava morrendo com tuberculose (três tapinhas na boca, suavemente, e o "em nome do padre", por via das dúvida)...
 
No quarto do meio, o 4, morava D. Maria Capuano, mãe do Salvador e do Vito. Do Salvador eu não sei ou não lembro, andava engravatado e saía bem cedo para trabalhar, mas sei do Vito, que dormia muito e tinha grande dificuldade para acordar, trabalhava em uma grande marcenaria na Rui Barbosa, ao lado do Rex; do nosso quarto, parede e meia, a gente ouvia D. Maria Capuano: "Levanta Vito, acorda figlio! Inacinho, 'córassó"?
- São 7 horas, D. Maria! Já começou o Jornal Falado Tupi!
- Vito, acorda, já são oito horas...
 
D. Maria Capuano tinha os longos cabelos branquíssimos e vestia-se toda de preto, luto pela morte do marido, “il signore Nuncio”, anos antes; falava o dialeto “bexigoportuliano”, compreensível apenas para moradores com ouvidos treinados e muito bem treinados. Fazia a melhor macarronada do bairro, disso não esqueço.
 
No quarto 5, meus pais e eu levávamos nossa vidinha da melhor maneira que fosse possível... Moramos no cortiço até 1950 quando nossa vida deu uma guinada de 180 graus e mudamos para a V. Clementino... Mas eu não esqueço, sonho com as pessoas, com os cheiros, com os barulhos. Dia desses sonhei com meu pai indo buscar água nas minas do barranco da Saracura; às vezes me vejo no Morro dos Ingleses, no belvedere, empinando o quadrado que comprei por 500 réis na feira da Fortaleza ou subindo a Brigadeiro indo para o Rodrigues Alves...
 
Faz tanto tempo, meu Deus, faz tanto tempo...!
 
Ah! Saudades, saudades!
 
E-mail: joaquim.ignacio@bol.com.br
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Publicado em 26/05/2014

História rica em detalhes e que demonstra ainda um dialeto costumeiro em muitas pequenas vilas e casas de companhias, tipo conjunto fechado das empresas, que faziam as mesmas para moradia dos operários. Quanto ao Bixiga é um caso à parte desta história e falando disso parece que agora vão reformar parte desta história, a Vila Itororó, por R$ 50 milhões. Aguardemos e que seja realmente verdade a conservação desse patrimônio, pois "enrolam" muito na decisão.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
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