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Categoria - Personagens Na escadaria da catedral Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 10/06/2014
Naquele sábado de outono, a conversa fluía macia e amigável e sem nenhuma pressa. Eu ainda não conhecia, naquele início dos anos 80, uma pessoa tão impecavelmente ética na sua juventude como o Paulo.
 
Rapaz humilde, negro, filho de costureira, de pouco estudo formal, mas com um conhecimento profundo do humano como eu jamais vira. E sabia muito sobre a fé, sobre a gratidão, alteridade. Com ele ouvi pela primeira vez que a gente deveria renunciar com alegria frente alguém necessitado de amparo, de tempo ou de afeto.
 
Conhecedor profundo da doutrina espírita, lá estava o Paulo, como eu, plantonista em uma entidade de prevenção do suicídio. Voltávamos de uma reunião de estudos na Rua Abolição. Foi ali que comecei a aprender a ouvir, a dar o ombro, a disponibilizar tempo para os desesperados. Até então, com meus vinte e pouquíssimos anos, eu não esperava me deparar com aquela realidade social tão dura, tão corrosiva, de uma cidade que se jacta de cultura e de assombro, de arte e de abandono, de sofisticação culinária e de milhões de estômagos a roncar sem solução.
 
Tive o privilégio das boas leituras, de fazer ali amizades sem nenhuma pretensão de afetos mais intensos. Tempo de conversas edificantes quando o trabalho nos dava alguma licença.
Da Rua Abolição, no meu querido Bixiga, fomos caminhando até o Centro. De lá eu tomaria o ônibus para o Cambuci com mais facilidade.
 
Naquela simplicidade de uma amizade sincera, nos sentamos um pouco na escadaria da catedral. E a conversa com base na filosofia humanista corria solta e com seriedade. E ele ia me falando da importância do casamento de vida inteira, da lealdade, da alegria do encontro, da superação dos milhares de obstáculos que certamente viriam, do poder extraordinário de uma união com elevadas doses de fidelidade. Sim, eu estava para me casar e ele ali, ao meu lado, como conselheiro, me falando da importância do respeitar sempre, das construções a serem feitas, da presença constante de um na alma do outro. Isso era sagrado. E eu pensava: “como o Paulo sabe tanto?”. Fiquei sem resposta para sempre.
 
Foi bem ali que percebi a alegria de uma nova amizade. A serenidade daquele carteiro me fez ter paciência – e ainda falta muita – para com as coisas da vida.
 
E o equilíbrio espiritual do moço era tal que ele não viu uma cena, que me provocou náuseas. Diante de nós, um homem de aparência humilde parou e se pôs a olhar para o Paulo com tal malícia, exalando sordidez, esperando uma oportunidade para falar alguma obscenidade que me insultou.
 
E ele esperava o meu amigo parar de falar sobre a vida para entrar na conversa e aquilo me provocou agonia porque eu estava suspeitando que, o que viria, iria me ofender terrivelmente. Passados alguns minutos, o homem foi embora porque não teve espaço. Simplesmente Paulo não o viu, enquanto eu já estava desesperada e muito inquieta, imaginando o que viria daquele “ser de luz”.
 
A grandeza do Paulo era tanta que ele não percebeu, à sua frente, o que seria cruel, vulgar, moralmente hediondo, asqueroso. Preferiu permanecer falando do bem, dos bons princípios, do amor de Deus e da eternidade da vida.
 
Obrigada, Paulo. Aprendi muito com você. Obrigada mesmo, para sempre, pois o que você me ensinou tem vida e perfume passadas três décadas. A aprendizagem é uma bênção, como foi o nosso convívio naquele centro de atendimento aos suicidas no centro de São Paulo.
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 07/07/2014

Algumas pessoas passam por nossa vida e deixam um aroma gostoso em nossa alma e com o passar do tempo paramos diante do tempo e refletimos: Que saudades!E vamos vivendo e respirando um pouco do passado misturado com o nosso presente.Lindo texto, parabéns!

Enviado por Luiz Carlos da Silva - lucasi__@hotmail.com
Publicado em 16/06/2014

Vera, acho que o Paulo era uma pessoa que descobriu logo bem cedo em sua vida, como é mais gostoso, agradável e bem mais fácil, ser bom.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 13/06/2014

A sensibilidade em seu mais elevado grau de intensidade. Assim vejo esta experiência relacionada com a atividade de auxílio ao pretense suicida, Vera. O papo mantido nas escadarias da Catedral com o Paulo, quanta riqueza de ensinamentos vc obteve, (e ele, também, quero crêr)numa exteriorização expontánea, tendo ao fundo, como cenário a fachado esplendorosa da Catedral e a participação de um estranho como um figurante, a completar o pequeno trecho do drama da nossa existência. Parabéns, querida Moratta.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 13/06/2014

Você é minha irmã. Aquela irmã que não tive e que o Ser Supremo me deu através de você. Acho que por isso pensamos igual.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 13/06/2014

Marcos, meu queridíssimo. Eu até nisso penso como você. Temos que ser bons porque é bom e pronto. Nunca pensando em medo ou recompensa. Simples, né? Um abraço enorme.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 13/06/2014

Sao pessoas que chegam em nossas vidas e ficam para sempre em nossas memorias pelo bem que nos fazem e nao importa o tempo que passe eles nunca serao esquecidos . Bom texto Vera . Abracos Felix

Enviado por João Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 11/06/2014

Ouvir é uma virtude, talvez mais importante do que falar, é um dom que adquire-se com muita perseverança. Outro dom é saber observar as necessidades humanas e ter pelo próximo o respeito que gostaríamos que a nós fosse dado com o mesmo merecimento. Um dia nos será dado discernimento para diferenciar o joio do trigo.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 11/06/2014

Vera irmã querida. O Paulo, era alguém a quem chamo de Ser Pleno. Aquele tipo de pessoa que não faz nada pela graça do Céu nem por medo da danação eterna, faz por si e de si, com tanta força e luz que ofusca todo e qualquer mal.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 11/06/2014

É um caso raro, mas há pessoas que entram em nosss vidas e são prceiros, e nos complementam nossa vida juntamente com nossos pais e parentes, bom saber de mais um caso positivo entre pessoas sem o menor interesse de qualquer monta, parabéns, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 11/06/2014

Vera, eu creio que nós aprendemos todos os dias de nossa vida, vez ou outra surgem várias pessoas como seu amigo Paulo que nos transmitem algo de bom, compete a nós assimilarmos, parabéns pelo texto e pela gratidão ao amigo.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
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