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Categoria - Personagens Um certo João Autor(a): Alfred Delatti - Conheça esse autor
História publicada em 11/06/2014
Meu amigo João era um cara especial mesmo. Nascido em Santarém, na beira do Rio Tapajós, dez anos mais velho que eu, só isso já o tornava para mim um cara misterioso e cheio de segredos.
 
Como um cara nascido na floresta amazônica tinha vindo parar em Santana?
 
Em meados dos anos 60?
 
E não era só isso, o cara havia estudado em uma escola de missionários americanos e falava inglês fluente e conhecia a fundo a história norte-americana. Foi vaqueiro na Ilha de Marajó, locutor de rádio em Belém, grande conhecedor de MPB, coisa que para mim, “beatlemaníaco” fanático, soava ainda mais estranho, como diabos um cara podia gostar de um tal de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João Gilberto, se em nosso mundo só existiam Beatles, Elvis e Rolling Stones ?
 
Muito estranho esse cara.
 
Tinha opiniões maduras e gostava de interpretar as situações da vida de forma filosófica e sempre bem-humorada. Ri muito quando após ouvirmos atentamente a música “Remember when” do famoso conjunto The Platters, ele após um longo silêncio, fitando lugar nenhum diz: “essa música é o final de um sexo…”.
 
Mas naquela noite estávamos lá, eu e esse amigo em uma esquina da Av. Leôncio de Magalhães, parados, fumando, quando de repente, estaciona em nossa frente uma viatura da RUPA, a temida ROTA da época.
 
Não percebemos eles chegarem. Ficaram nos olhando de dentro do carro, uns quatro caras mal encarados, ameacei sair, ele diz: “fica aí, não se mexa”, e eu fiquei petrificado de medo e terror.
 
Meu amigo João frio, encarando os caras, dando longas tragadas no cigarro.
De repente um dos caras, faz um sinal de positivo pra ele, e a viatura arranca e some pela avenida.
 
Olhei para meu amigo espantado.
 
Pô o cara te conhece, perguntei, e ele sorrindo tira do bolso da calça uma carteira com o símbolo da Polícia Federal, o cara tinha sido agente da PF em Belém-PA !
 
Outra vez em um bailinho no Alto de Santana, aniversário de 15 anos de uma bela menina, a coisa começou a ficar tensa, pois várias turmas estavam no lugar. E um cara alto e forte, que mesmo de noite usava um daqueles óculos escuros de aviador, todo empombado, querendo aparecer, mexia com todo mundo. De repente correria, brigas, gritos, o pai da mocinha ameaçando chamar a polícia... Corri para fora, ficando escondido atrás de uma árvore olhando toda a confusão, quando do meio do tumulto quem me sai todo sorridente, com seu indefectível cigarro e usando os óculos escuros que há poucos minutos era do metido que começou a briga ? Meu amigo João é claro!
 
Um dia nossa velha TV Invictus queimou. Que fazer agora? Ele tranquilo, com apenas uma chave de fenda identifica a válvula queimada, vai até a esquina em uma loja de eletrônica levando a válvula queimada, volta com uma nova, faz a troca e a velha TV nos alegra novamente.
 
“Caramba, João!”, digo, “Até disso você entende e como vamos pagar a válvula nova?”. “Fica tranquilo” ele diz, “o cara não me cobrou nada!” Como? Saiu de graça? E ele na maior tranquilidade diz: “eu que ensinei eletrônica pra ele!”
 
Uma vez sumiu, ficou uns três anos sem dar as caras em Santana. Na época eu trabalhava no Jumbo Aeroporto, na loja de motos e carros quando alguém atende o telefone da loja e diz que uma pessoa do SNI queria falar comigo. SNI? Em 1975? O gerente de nossa loja me olhou meio assustado, dizendo, acho que deve ser engano e mandou o atendente confirmar, sim, era do SNI, Serviço Nacional de Informações, a CIA tupiniquim!
 
Atendo, quem era? Ele meu amigo João, tinha voltado, estava vindo até ali para nos encontrar e almoçar juntos!
 
Tinha ido para Manaus. Lá conheceu uma moça, filha de um fazendeiro, ela grávida, casaram escondidos. O pai da moça, coronel da região, mandou dois jagunços atrás dele, um ele matou no tiroteio o outro fugiu não antes de matar a moça sem querer e lhe meter dois tiros na sua barriga, cujas cicatrizes mostrava pra mim, dizendo, seis meses no hospital pqra recuperar! Pegou uma grana, comprou um Chevette e veio sozinho dirigindo de Belém para Sampa, onde o carrinho chegou tão mal tratado que foi vendido para um desmanche.
 
Um dia partiu novamente pra Belém. Nunca mais voltou.
 
Soube anos depois, pela sua própria mãe, que tinha falecido num acidente de carro na Via Dutra voltando do Rio para Sampa.
 
Será?
 
Não acredito!
 
Assim como Elvis que largou tudo e virou caminhoneiro no interior dos EUA, meu amigo João deve estar comandando algum barco de turistas estrangeiros pelos rios da Amazônia, muito louco e muito feliz, como ele sempre dizia.
 
E-mail: apdelatti@ig.com.br
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Publicado em 16/06/2014

Acho que na década de 50 e 60, havia muitos chamados valentões em quase todos os bairros de São Paulo, na Freguesia do Ó meu velho e querido bairro haviam vários valentes e briguentos, e que pagavam para não sair de uma briga um deles era meu primo Alcides, conhecido como Alcides portugueis. Acho que todos eles, assim como esse meu primo irmão tiveram um fim trágico, e nem poderia ser diferente.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 14/06/2014

Uma figura saida de livros de aventuras, monopolisando membros de uma geração sequioza de herois. Desapareceu da mesma forma que apareceu, como se fosse um espirito nutrido de lendas e especulações. Muito interessante essa narrativa, Delatti, parabéns.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 14/06/2014

Delatti, interessante a trajetória de seu amigo João, culto, versátil e de bem com a vida, talvez ele ainda esteja vivo, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 13/06/2014

Alfed - Lembro de uma musica do Dorival Caymmi, que acredito que se inspirou no seu amigo João -

João Valentão é brigão

Pra dar bofetão

Não presta atenção e nem pensa na vida

A todos João intimida

Faz coisas que até Deus duvida

Mas tem seu momento na vida

É quando o sol vai quebrando

Lá pro fim do mundo pra noite chegar

É quando se ouve mais forte

O ronco das ondas na beira do mar

É quando o cansaço da lida da vida

Obriga João se sentar

É quando a morena se encolhe

Se chega pro lado querendo agradar

Se a noite é de lua

A vontade é contar mentira

É se espreguiçar

Deitar na areia da praia

Que acaba onde a vista não pode alcançar

E assim adormece esse homem

Que nunca precisa dormir pra sonhar

Porque não há sonho mais lindo do que sua terra

Abraços Delatti ...

Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
Publicado em 11/06/2014

Há pessoas que marcam nossas vidas e que não tem lugar algum de residência, é um andarilho eterno, que aparece e desaparece de tempos em tempos e jamais fixam-se num lugar definido. Vivem apenas a vida ao seu modo sendo a felicidade os momentos alegres em que participam com a amizade criada.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 11/06/2014

Tomara mesmo Alfredo, mas pode ser que ele esteja aprontando das sus lá pelas bandas de São Pedro. Quem sabe, né????

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
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