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Categoria - Outras histórias Saudades das Copas do Mundo II Autor(a): João Felix - Conheça esse autor
História publicada em 17/06/2014
Continuando e relembrando nossa redenção em 58: quanta alegria, quanta festa fizemos no nosso bairro, na nossa rua, na nossa cidade, no nosso Brasil!
 
 
Suécia 1958
 
Levamos oito anos para digerir aquela derrota de 1950.
 
E o melhor estava por acontecer. O primeiro passo foi organizar uma estupenda comissão técnica, com o Dr. Paulo Machado de Carvalho no comando e uma seleção de craques que encantou o mundo. Foi o debute do Rei Pelé, com o nosso fabuloso Garrincha e os inesquecíveis: Gilmar, Beline, Zito, Djalma Santos, Nilton Santos, De Sordi, Mauro. E ainda Oreco, Zozimo, Didi, Vava, Zagalo, Pepe, Mazzola entre outros e com o bonachão Vicente Feola no banco. Estávamos apenas começando humildemente nosso reinado de alegrias.
 
Eu sempre fui extremamente sensível emocionalmente, e para chegar às lagrimas não é preciso muito. Foram inúmeras vezes que chorei com resultados da seleção, e do meu clube do coração. Mas a que realmente mais doeu foi aquela de 1950. Pois era ainda um adolescente e aquela derrota tocou lá no fundo do meu coração. 
 
Mas entre as outras vezes que chorei, a mais deliciosa estava chegando para mim. E quando via os espanhóis, beijando a estrelinha que havia sido colocada na camisa deles no final da Copa na África do Sul. Veio-me na lembrança o choro de alegria naquele começo de tarde, daquele domingo de junho de 1958, quando começamos a colecionar estrelinhas em nossas camisas, coisa que nos cabe o privilegio de ter começado com esse costume, pois depois disso todas as outras seleções imitaram. Assim também como aquele gesto do Belini erguendo o troféu para o alto como que agradecendo a Deus por aquela vitória digna de muita humildade garra, e merecimento. E nossa vez tinha chegado naqueles 5 x 2!
 
Na final foi contra os donos da casa, a Suécia. E esse foi o começo de um reinado que poderia ter sido ampliado ainda mais. Mas não dá para ganhar todas. Mas que tínhamos potencial para isso tínhamos. Hoje tudo mudou e o mundo já está mais parelho futebolisticamente falando. Tanto que a maioria dos convocados da nossa seleção joga no exterior.
 
Dessa Copa de 58 lembro daquele domingo em que estávamos jogando contra a Rússia. Era hora de almoço e nossa família estava reunida como de costume de todos os domingos com meu pai na cabeceira da mesa. Eu era recém casado, pois casei no fim do mês de maio. A rádio vitrola estava ligada na Bandeirante. O Pedro Luiz e o Edson Leite dividiam irradiação do jogo com emoção meio tempo cada um. O meu pai, um espanhol meio do contra, brincava comigo, dizendo que os russos iam arrebentar com o time brasileiro (ele tinha a mania de achar que os russos eram a maior potência mundial , depois daquele domínio que tiveram contra os nazistas no fim da II Guerra Mundial) . O jogo estava 0 x 0 e até confesso que tinha um pouco de receio, pois eles tinham um time bem arrumado. 
 
Mas com todo o respeito que tinha pelo meu velho eu brincava e dizia: “pai não vai dar outra, é Brasil na cabeça!”. E o Garrincha fazendo das suas, fingia que ia para um lado, e ia mesmo enganando sempre o adversário. Em uma dessas, ele cruzou uma bola na área e o Vavá fez o primeiro gol, o que deixou meu velho meio contrariado, pois sua predição não estava se concretizando. E logo no começo do segundo tempo o Vavá enfiou o segundo e eu gritei “goool!”... E ali acabou a festa e nosso almoço também, pois como o velho tinha tomado um pouco a mais do vinho que tinha direito, não quis mais saber de conversa.
 
Mas voltando ao domingo da festa da final, nós todos juntos: Careca, Bolão, Aquilino, Rudes, Gibino, Rubico e o Robles, que era primo do famoso Pinga I da seleção e da Portuguesa e do Vasco, saímos para festejar o primeiro título mundial. Começamos pela nossa saudosa Rua Caetano Pinto e pelo Bairro do Brás, onde morávamos. Depois pela cidade, sem deixar de ir a um lugar tradicional, que nos velhos tempos era sempre o escolhido para comemorar por todos qualquer acontecimento esportivo seja qual fosse: A Avenida Cásper Libero, em frente à sede da Gazeta Esportiva, onde era sempre dada a saída e a chegada da corrida de São Silvestre no último dia do ano. Foram muito extasiantes aqueles momentos! Foi aí que chorei aquele choro bem gostoso. O choro da alegria que o momento da vitória nos proporcionava.
 
Lembro também do dia em que recebemos os campeões que voltavam da Suécia. Eu como era taxista, como não podia deixar de ser, estava trabalhando. E com o rádio ligado na Bandeirante escutando e acompanhando as homenagens que o povo lhes prestava. E eles em cima de um carro de bombeiros em passeata pela cidade. Isso ainda no Rio de Janeiro e depois parte do grupo viria para São Paulo.
 
Nisso, lá na Praça João Mendes, subiu um passageiro enquanto eu esperava o sinaleiro abrir, e aos berros como um louco varrido me ordenava que eu desliga-se o rádio imediatamente. Eu fiquei olhando espantado e surpreso com a maneira que aquele sujeito queria estragar meu dia. Dizendo-se coronel do exército (nem general ele era), dizendo que aquilo era uma palhaçada e que ele não podia fazer parte dela, inclusive dizendo que quando os soldados brasileiros voltaram da Itália não houve nenhuma manifestação popular como aquela para eles. Eu protestei com veemência, pois eu mesmo havia participado dessa homenagem em 1945 que começou no Anhangabaú e seguiu pela Avenida São João até a Praça Marechal Deodoro. Mas no fim achei melhor desligar o rádio, pois como ele pagava pelo serviço, ele tinha algum direito quanto a isso, pois o meu direito sempre termina onde começa o do meu próximo. Até porque como diz o velho ditado “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”, e ia acabar sobrando para mim... E aquele recalcado oficial (se é que ele era, pois nunca se identificou) desceu na Sete de Abril, no edifício dos Diários Associados, e aí pude de novo escutar a festa sem maiores problemas, pois todos os passageiros que servi no resto do dia, eram normais e festejaram comigo aquele momento feliz.
 
Até o próximo capítulo, no Chile de 1962.

 

E-mail: jfvilanova@gmail.com
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Publicado em 31/08/2014

Caro Sr. João Félix,

O sua documentação sobre a Copa de 1958 está bem descrita e com ótimos detalhes.

Aquele dia de São Pedro de 1958 eu e alguns amigos estávamos na Praça Cornélia na Água Branca na esquina com a Rua Crasso onde tinha um alto-falante irradiando a partida.

O Dr. Paulo Machado de Carvalho fez uma ótima campanha mas quem da sua(dele) comitiva inscreveu os números dos jogadores talvez tinha pouco conhecimento de futebol.

Disseram na época os "estudiosos" da comissão que chegaram a conclusão certa?/errada? sobre o jogador negro, quando fora do Brasil se sentia melancólico e não produzia o que era capaz de produzir no Brasil.

Talvez essa teoria não seja correta, mas o fato é que no primeiro "match" contra a Áustria o único jogador negro que entrou em campo foi Didi, porque o seu reserva era Moacyr do Flamengo também negro. Pelé estava machucado antes de ir para a Copa graças ao "botinudo" Ari Clemente.

Quanto ao Garrincha de fato foi um fenômeno que brilhou na Copa e como dizia a música "que fez o Russo virar menino".

Atrás do sucesso de Garrincha tem uma historia interessante.

Garrincha era a terceira opção para a posição de ponta direita e foram convocados os seguinte jogadores:

1 - Julinho que jogava fora do Brasil com a Fiorentina e

2 -Joel Antônio Martins do C.R. Flamengo.

Na época poucos jogadores eram convocado para a seleção nacional jogando no exterior.

Julinho em um ato nobre decidiu não aceitar a convocação alegando que não queria tirar a oportunidade de um jogador que jogava no Brasil.

Garrincha foi convocado junto com Joel Antônio Martins, sendo este último o titular.

Foi graças ao gesto de Julinho(que com estilo de jogo diferente nunca deveu nada ao Garrincha dentro ou fora dos gramados) que Garrincha ganhou o seu(dele) lugar no cenário do futebol mundial.

Depois veio o famoso "match" de 13 de maio de 1959 no Maracanã Brasil x Inglaterra, quando Julinho foi vaiado pelo público ao ser escolhido pelo mesmo “bonachão” Vicente Feola no lugar de Garrincha, mais esta é para um outo dia e uma outra história do "velho futebol"

Abraços de Juprelle na Bélgica,

Ademar

Enviado por AZLerose - mchale326@hotmail.com
Publicado em 27/06/2014

Excelente crônica memorialista. Valeu para recordar momentos de angustia e satisfação. Parabéns!

Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 20/06/2014

Meu amigo eu não sei nada de futebol,tenho até vergonha de falar mas não sei o nome de nenhum jogador desta copa e das anteriores só guardei o nome dos grandes jogadores da época mais nem sei em que time jogavam ou qual era a função de cada um.

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 20/06/2014

Pois é JoÃO...eu nessa época tinha treze anos, E me recordo mais ou menos de um comentário feito pelo Sr Alaor , um bugigangueiro que andava pelas Ruas do Jardim Penha com uma carriola...Algumas horas antes de um dos jogos do Brasil começar ele disse mais ou menos isso..." Hoje o Dida não vai jogar, vai entrar um tal de PELE em seu lugar vamos ver o que vai dar" ....Dai pra frente nem preciso falar no que deu....

um abraço Felix

Enviado por Luiz Gonzaga Simões Garcia - gonzagagarcia@ig.com.br
Publicado em 18/06/2014

Felix, estou acompanhando sua narrativa, aprendendo alguma coisa e recordando outras, parabéns,Estan

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 17/06/2014

Felix, foi uma das melhores copas que o Brasil disputou, tinha realmente um time fenomenal principalmente com o Pelé aparecendo de maneira sensacional, boa lembrança.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 17/06/2014

Que bom que você assume a sua sensibilidade, meu querido João. Isso é maravilhoso! Estou gostando muito dessas suas memórias, como falei, revivendo alguns casos que o meu pai contava. Quanto ao final do texto, bem... o que fazer? Parabéns e um grande abraço pelo belíssimo relato.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 17/06/2014

Querido João, eu mesmo depois das vitorias do nosso Brasil depois da Copa de 1950 contra o Uruguay. Só irei me sentir totalmente satisfeito,como também realizado no dia em que o Brasil ganhar uma Copa do Mundo com um gol de ão de algum atacante contra a Argentina. Ai sim eu gritarei DE BOCA CHEIA: NOSSO BRASIL TEM O MAIOR E O MELHOR FUTEBOL DE TODO MUNDO. VAIIIIIIIIIIIIIII BRAZILLLLLLLLLLLLLLLLLLLL. e BRAZIL COM Z, PADRÃO DA FIFA. (RISOS.)

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 17/06/2014

Mais uma demonstração de extraordinária memória do meu irmão Felix. Outra copa regada a alegria não faltando o militar rabugento, no final. Como sempre, John, vc extrapola o que se espera de uma narrativa sobre futebol, lembra de tudo, sabe de tudo, tem gosto pra tudo. Deixa todo mundo mudo. Parabéns, fratelo mio.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
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