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Categoria - Personagens Histórias do Submundo: Serginho das Candongas Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 26/06/2014
Prostrado em reverência, eu bato cabeça humildemente para o samba e para as falanges dos sambistas, para as falanges dos velhos malandros e para as falanges das gentes trabalhadoras; bato cabeça para os viventes que estão por aqui e para os que estão para ir ou para os que já estão em Orum de Olorum, o Senhor de Orum, Saravá..., bato palmas de mão e acendo velas brancas na cruz do chão sagrado do Largo da Misericórdia, kalunga ancestral do Rosário dos Homens Pretos, uma vela em cada quina de rua, para que meus passos sejam guiados nas sendas das histórias e das verdades.
 
Orixá permitiu que eu contasse do nascimento e da vida de Serginho das Candongas; então vou contar porque é minha obrigação:
 
Ele era chamado de Sérgio mas não tinha nenhum documento, nenhum babilaque ou gibi que atestasse ser esse seu nome verdadeiro, ele simplesmente atendia por esse nome quando chamado, e, na confraria dos malandros, era conhecido como Serginho das Candongas.
 
Ele era da 'leve' mas era contemporâneo e conhecia um pessoal da 'pesada': 7 Dedos, China, Pato n'Água, Tininho, Testa, Pé Rachado, Cabo Verde, Marião, Jaburu, Galo Cego, Quinzinho, Pimentão, Tarzan, todos essas figuras com o paletó abotoado já faz tempo, muito tempo! 
 
Vou contar sobre coisas do passado, no tempo pretérito, porque Serginho das Candongas também já deu sua última gargalhada e virou entidade, nos dizeres de Galé Boca de Ferro, grande filósofo da “Boca do Lixo” e do botequim e pastelaria da Ponta da Praia, na Rua Formosa, a melhor garapa com fernet, Fogo Paulista, cachaça de litro e meia colher de pimenta-do-reino da cidade de São Paulo, garantia de uma fogueira total e absoluta já na metade do 2º copo...
 
Serginho nasceu no lupamar da Madame Guilhermina, cafetina e dona de “pensão familiar” estabelecida à Rua Aymorés, no Bom Retiro. Nasceu filho de Mariusa, a Maria Tijolada, que se vendia e fazia ódio nas alamedas e moitas do Jardim da Luz e que, eventualmente, prestava serviços domésticos no bordel e um ou outro free lance, dependendo da clientela. Serginho nasceu de parto normal, nasceu bem, sem dor, simplesmente escorregou prá fora das tais “vias de regra” da mãe que nem sentiu. Entretanto, Mariuza, dois ou três meses depois, bateu a “cachuleta” vítima de uma infecção generalizada e após ter apanhado uma blenorragia das brabas, situação patológica complicada em sendo ela portadora de tuberculose crônica. 
Foi enterrada na 4ª Parada graças a uma vaquinha feita pelas colegas de trabalho que, naquela noite, deixaram de trabalhar em sinal de luto, e também só faltava essa, onde já se viu! Desrespeito com a falecida? “Vampará” com isso, pelo amor de Deus! Um brinde prá Maria Tijolada... tim tim... a Maria vai deixar saudades... a esbórnia!
 
Muitas mulheres se revezaram nos cuidados com o Serginho, neguitinho de fraldas e de cueiro. Foi amamentado, vestido e alimentado pelas meninas que, no duro, no duro, mercadejavam seus corpos para a glória da Zwig Migdal, as ditas polacas da Mme. Guilhermina (ou seria Willelmina?). 
 
Mulato de cabelo liso, filho de mãe negra, Serginho foi oficiosamente adotado por aquelas mulheres louras, de olhos azuis, de pele rosada e de diferentes sotaques europeus. Já crescidinho, com seus 15, 16 anos, começou a trabalhar no bordel, casa de prostituição exclusiva para clientes judeus. 
Serginho cuidava da limpeza do “sobradão”, varria, escovava, lavava, fazia compras com Mme. Guilhermina. Nos shabat ele assumia o gerenciamento da casa, apesar da pouca idade, apesar da cor da pele e apesar de gentio, pois a casa funcionava para os judeus que não estavam nem aí com o melachot e as prescrições talmúdicas, do tipo "não fornicarás no decorrer do shabat, pois ficarás impuro por 600 dias"!
 
Fez o curso primário e aos 18 anos assentou praça na Força Pública graças à manobras da Madame que “fajutou” uma certidão de nascimento e, digamos, chantageou um figurão do governo que lhe devia alguns favores. 
 
Soldado mais malandro que a malandragem, rei da argumentação e do convencimento, cheio da baba de quiabo, conseguiu entrar para o policiamento e ronda na zona do meretrício, nem precisou sair de casa para trabalhar. Existiria malandragem maior?
 
Fardamento caqui, quepe, perneiras de couro preto e borzeguins brilhando como espelhos, talim, cinturão, coldre, parabellum, Serginho era do Batalhão de Cavalaria da Avenida Tiradentes, figura imponente e assustadora quando à cavalo, a espada embainhada e presa à sela; acabou por se tornar uma espécie de cuidador da Aymorés, da Itabocas, da José Paulino, antiga dos Imigrantes, da Prates, da rua da Graça e adjacências. 
 
Soldado malandro, conhecedor de todos os cantos e recantos, das pessoas e não-pessoas dos quarteirões do pecado, dos vigaristas, dos adé-afofôs, dos aplicadores do “suadouro”, parecia comandar mais do que o tenentinho que deveria comandá-lo: "É o seguinte, tenente: aqui pode, ali não pode, tem de levar fé nesse pessoal e, além do mais, as meninas precisam trabalhar, tem filhos prá criar, elas têm obrigações, precisam deixar uma grana com a madame, e cocoréco e bico de pato, e quemelescuê e zambezambe, deixa comigo que eu resolvo, eu 'tô’ de olho...". 
Prá ser sincero, ninguém podia com a vida do Serginho, já então Serginho das Candongas, título outorgado pelas mulheres da vida nem sempre fácil e nem sempre alegre.
 
Serginho tinha vida de rei, recebia presentes das “primas”, se perfumava com perfumes importados, tinha um harém à disposição! Mulheres? Todas as mulheres! Ele era um homem feliz, tinha casa, comida, roupa lavada e um percentual do faturamento das casas sob sua proteção, o “caradura” até que vivia bem, sim senhor!
 
Além das mulheres, Serginho tinha outra paixão: adorava os desfiles, as paradas militares do 7 de Setembro, vibrava com os aplausos das pessoas, empinava a montaria de propósito, desfilava para o público, era como se fosse uma criança solta numa loja de brinquedos. No entanto, às vezes Serginho precisava trabalhar de verdade, trocar tiros, efetuar prisões... Sua fotografia, prá seu orgulho e “carteação” de marra, chegou a ser publicada uma vez no “Correio Paulistano” e no “O Tempo” e algumas outras vezes no "A Hora" e ele sempre comprava fiado, só no “gorogogó”, muitos exemplares dos jornais e os distribuía entre as mariposas e damas da noite, suas fãs, amantes, protegidas e – não vamos ser hipócritas – fontes de arrecadação pecuniária. 
 
O dinheiro do soldo era dinheiro de algibeira, arame pro pretinho quente sorvido ruidosamente no pires – ele todo gostosão sentado nas mesinhas do “barzão” do Largo de São Bento – e prá “bóia” no Guanabara, grande feijoada aos sábados, coisa fina, “gororoba” recortada, coisa de bacana...
 
Certa vez chegou a ser esfaqueado numa “amarração de camisas” com um concorrente, disputa de pontos e de mulheres. A coisa toda rolou no pátio que ficava nos fundos da igreja luterana da Rio Branco, na boca do Paisandu; no dizer do velho Brandão, a situação ficou "financeira", faltou pouco prá ele ir pro loteamento da Vila Formosa, o cara era bom de aço...
 
Cabelos brancos, idoso, andava se sentindo esquisito, tinha sonhos estranhos, dormia mal, agoniado. Saudades da mocidade, das mulheres, da agitação das multidões. Sonhos recorrentes vivem remetendo-o a um pântano de lembranças: o incêndio da Estação da Luz, o quebra-quebra dos ônibus e dos bondes em 1947, desfiles com fardamento de gala nas festas do IV Centenário, seus últimos desfiles. Fez parte da guarda de honra do presidente de Portugal, Craveiro Lopes, apareceu na televisão, no canal 3, enquanto o Tico Tico entrevistava o governador Janio Quadros... Poucas eram as alegrias. As mulheres envelheceram, algumas encarquilharam, e, de amantes tornaram-se amigas e nada mais. Só amigas e confidentes quando o “banzo” batia forte. 
 
Nessas ocasiões vinha para o centro da cidade e visitava os lugares que frequentara 40 e tantos anos antes e procurava um reviver da vida que fora bem vivida. 
Suas andanças pelo “Centrão” eram demoradas, seus passos eram lentos, pesados, passos que levavam um corpo “esmulambado” de mais de 70 anos.
 
Viaduto do Chá, as pessoas indo e vindo. Um garotão, cavanhaque com meia dúzia de fios, cabelos desgranhados, colete e crachá de uma emissora de televisão famosa, agressivamente coloca a mão espalmada no peito do Sr. Sérgio:
 
– Nós estamos colhendo algumas declarações de passantes aqui no Viaduto do Chá. Você olha para a lente da câmera enquanto a nossa repórter faz algumas perguntas. Em seguida você responde com poucas palavras... Ah, sim... Quando você terminar de falar procure rir, e se você for banguela é melhor. O povão gosta de caras engraçados e sem dentes.
 
– Não leve a mal, mas antes de mais nada, me trate de senhor, que eu tenho idade para ser seu pai e, meu amigo, eu não sou banguela, não quero aparecer na TV e não me interessa rir como um débil mental só para satisfazer vocês. Com licença.
 
– O senhor, por favor, me desculpe. Quando eu vi o senhor vindo, achei que gostaria de fazer um depoimento pro nosso jornal do meio dia e...
 
– Isso! Tratar as pessoas com educação é bom e eu gosto... Prá ser sincero, eu não teria nada para falar na TV. Tive uma vida normal como a grande maioria das pessoas. Rotina, pura rotina, uma vida muito chata...
 
Sergio Galhardo do Pinho, o antigo Serginho das Candongas, foi encontrado morto, já empedrado, em seu quarto num hotel barato do Glicério, dizem que com um sorriso cravado no rosto. 
 
Morreu dormindo, tomou uma touca do coração. Seu corpo foi plantado num cemitério na Raposo Tavares. Não deixou esposa nem descendentes e não foram enviadas flores e nem coroas. Os últimos anos de vida, passou amaldiçoando o Lucas Nogueira Garcez que fechou a zona e os chalés do jogo de bicho, "aquele desgraçado que acabou com minha alegria".
E-mail: joaquim.ignacio@bol.com.br
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Publicado em 07/03/2015

Sr. Joaquim Ignácio de Souza Netto, muito obrigado por essa pérola literária.

Enviado por J Rodrigues Vieira - jrodriguesvieira@gamil.com
Publicado em 27/06/2014

Ignacio, o Serginho das Candongas viveu intensamente, revoltado apenas com o govêrno pelo fechamento da chamada !zona boêmia" no bairro do Bom Retiro, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 27/06/2014

Viveu como quis e morreu idem.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 27/06/2014

Ignacio, mais uma joia de sua verve. Texto respeitador das falas do cotidiano e muito aconchegante. Apenas um pequeno reparo este velho encarquilhado amigo deseja fazer, o Serginho deveria também ter uma bronca enorme daquele milico que ajudou fechar a zona e o jogo, o Porfirio da Paz, e seu nom não foi incluído no teu relato.

De resto, amigo velho, nada a mencionar, apenas aplaudir

Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 26/06/2014

Essa vai para lista das minhas crônicas preferidas escritas pelo senhor, Sr. Ignácio. Parabéns.

Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@bol.com.br
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