Leia as Histórias

Categoria - Personagens Memórias de um diálogo Autor(a): Miguel S. G. Chammas - Conheça esse autor
História publicada em 21/07/2014
Valentim parou em frente ao prédio que já vira por dezenas de vezes, em suas caminhadas sem destino pelo bairro do Caxingui. Era uma construção alta, o projeto, acreditava, era para apartamentos residenciais destinados à famílias de classe média. A obra tinha sido abandonada a meio caminho e, várias vezes ele se perguntara o motivo, sem ter qualquer resposta sobre o assunto.
 
Parado, olhou para o alto e deslumbrou uma noite soturna. Não estava quente, mas frio também não era o clima reinante. Automaticamente, estendeu o braço esquerdo e verificou seu relógio que marcava 19h45.
 
A indecisão lhe acompanhava. Titubeou um pouco, vacilou outro tanto. Repensou, rapidamente, em seu plano; avaliou a possibilidade de abandonar tudo e tornar à casa. Balançou a cabeça, como se quisesse esvaziá-la de todos os pensamentos. Pigarreou, na inútil tentativa de limpar as vias aéreas, respirou profundamente e, só então, deu o primeiro passo e adentrou nas ruínas daquela construção.
 
Estava muito escuro, então parou e esperou as vistas se acostumarem com a falta de luz. Depois buscou as escadarias que poderiam levá-lo ao topo do esqueleto arquitetônico e, começou a galgar os degraus, ainda mal acabados, em busca do mais alto pavimento.
 
A subida estava difícil, visibilidade quase nula. Restos e detritos de construção, a todo momento, buscavam seus pés, como se quisessem que ele desistisse da empreitada. Não se importava, estava decidido, iria concluir o que começara poucos instantes atrás.
 
De repente, aquela mal completa escada chegou ao fim; não era o fim derradeiro, anteriormente projetado, mas o fim abrupto, causado pelo abandono da obra.
 
Não tinha mais como subir, já galgara cinco andares, através de 10 lances de escadas. Estava ofegante. Firmou o olhar para poder perscrutar o ambiente. O pavimento era totalmente devassado, só existiam as colunas de sustentação e nada mais. Com passadas claudicantes, aproximou-se do beiral do piso e, com uma olhada, conseguiu avaliar a altura que o separava do solo. Deu-se por satisfeito.
 
Buscou algo para poder sentar-se e conseguiu, bem próximo de onde estava, empilhando alguns tijolos. Sentou-se, esticou as pernas para frente, para melhor se acomodar. Consultou novamente o relógio e verificou que havia levado, apenas 40 minutos, para vencer as dificuldades e chegar até ali. Era cedo ainda, tinha certeza que em sua casa ninguém dera por sua ausência.
 
Sentado, esperou a respiração voltar ao normal, então, empunhou o gravador portátil que trouxera. Limpou a garganta, pigarreando umas duas vezes e, pronto, apertou a tecla “rec” e começou a falar. Preocupou-se em falar baixo, evitando as distorções entre os sons graves e agudos.
 
- “Queridos e amados filhos; meus netos e netas, detentores de muito amor e carinho; amigos que Deus, por infinita bondade, me permitiu ter e manter até este momento, a idade finalmente chegou para me maltratar. Já não tenho ânimo para viver. O trabalho, que me permitia ter uma independência existencial, se tornou escasso, aliás, quase inexistente. E, assim, não consigo melhorar minha renda pessoal, não consigo comprar todos os medicamentos que os profissionais de saúde me receitam, não consigo mais pagar meu plano de saúde... Sendo assim, não terei mais receitas médicas para gastar meu pequeno dinheirinho. Desta forma, a cada ano que envelheço, meu benefício de aposentadoria envelhece também e fica mais fraquinho. Tanto que, quase não consigo comprar minha sobrevivência. Minhas dores reumáticas, minhas sequelas diabéticas, minha contingência urinária, minha visão quase finda; provam que eu teria necessidade de ficar dependente a alguém que, por obrigação ou benevolência, passaria a cuidar de mim em tempo integral. Esta é uma situação que desde muito tempo, eu apregoo que não queria e não quero viver.
 
Chegou, então, amantíssimos, a hora de partir.
 
Até agora, esperei que a Divina Providência pudesse cuidar dessa tarefa e me convocar para o andar de cima, mas parece que nem lá eu sou desejado.
 
Usando, assim, os parcos conhecimentos esotéricos que um dia adquiri, lembrei-me que para exterminar de vez nosso “Eu Maior”, a única solução era o “autoextermínio”, ou em outras palavras, o suicídio.
 
Pensei muito a respeito e decidi que, pelo menos, esse último ato eu deveria ter coragem suficiente para cometer. E resolvi que um mergulho no espaço, seria a fórmula ideal. Não queria, também, que esse meu gesto e suas consequências, fossem presenciados por alguém. Lógico, não quero que ninguém veja, se eu afinar na hora “h”, e também não quero muita gente verificando a cena dantesca de meu fim.
 
Assim, procurei durante algum tempo, o lugar ideal para esse desfecho. Achei este esqueleto de prédio abandonado, com altura suficiente para permitir estrago bastante, quando meu corpo chegasse ao solo.
 
Paguei todas as contas pendentes, beijei as fotos de todos os meus entes queridos - filhos, netos, primos e amigos. Sai de casa e me dirigi ao local, onde estou agora, nos últimos preparativos para consumar meu fim.
 
Adeus a todos!”
 
Desligou a gravação, embrulhou o gravador em um pedaço grande de flanela, já preparado para isso, no intuito de não ser quebrado com a queda. Colocou o gravador no bolso de trás da calça e começou a levantar-se...
 
- Que besteira é essa, sô?
 
Assustou-se com a voz inesperada. Pensava estar sozinho naquele local. Olhou em volta e não viu nada diferente.
 
- Acho melhor largar de bestagem moço.
 
- Quem é você? Onde está?
 
- Eu sou o Tonho e to aqui do seu lado, na beira da escada.
 
Olhou para o final da escada, que havia subido ainda há pouco, e viu uma sombra.
 
- Como chegou até aqui?
 
- Uai, subindo pela mesma escada que você. Vi você entrando e resolvi verificar o que ia fazer na minha casa.
 
- Como? Sua casa? Este prédio está abandonado há muito tempo.
 
- Abandonado pela construtora, não por mim. Quando eles abandonaram, eu cheguei para morar aqui. É aqui que eu durmo todas as noites com chuva ou não.
 
- Eu pensei que estava sozinho por aqui. Você ouviu o que eu estava falando?
 
- Claro que ouvi toda aquela bestagem. Tá louco, homem? Que ocê tá pensando?
 
- É verdade sim, resolvi abreviar a minha permanência neste mundo. Estou cansado de sofrer.
 
- E acha que a sulução é si mata? Então, o que eu tô fazendo inda aqui? As veis passo dois dia ô mais sem ter o que mastigar. Quano a fome aperta mermo, chego a comer os resto dos sacos de lixo da vizinhança. Quano tá mais frio, eu me enrosco nos trapo, me escondo do vento aqui drento do prédio. E continuo firme na vida, esperando, vai sabe, um dia melhor. E ocê, que tem onde morar, que tem uma graninha - mesmo qui pequena todo mês -, que tem médico tratando, que tem remédio para tomar, que tem fios, netos, parentis i amigos, resolve abandonar tudo e se matar?
 
- Olhando desse jeito, até que você tem um pouco de razão. Mas o que faria se tivesse filhos, como os meus, que nem lembram que você existe, ou só se lembram de você por obrigação ou necessidade premente? Que faria se tivesse netos, como os meus, que passam dias, meses, anos sem nunca te procurar?
 
- Bão, isso é um pouco ruim, mas num é motivo pra se matar. Si os teus fios não se alembram de ocê, ocê devia também num se alembrar delis. Tinha de passar a borracha e esquecer, assim, quem qui sabe, eles ia perceber sua osência e lembrassem de ocê. Os netos, não te procura nunca, mas ocê continua vivo. Intão eles num fazem tanta falta assim. Continua tua andança sem eles, é menos fardo prá carregar. Isso vale também para os outros parentis e amigos. Eles monstrô não ter qualquer preocupação com a sua pessoa, então é justo que ocê também não tenha qualquer preocupação com a pessoa delis. Você, posso ver, tem muito mais leitura e curtura do que eu. Intonce num tem o direito, de forma ninhuma, de ter esses pensamentos disgostoso assim. Essas ideias vão contra todas as lição religiosa existente, qualquer qui seja a religião que ocê aceita e acredita.
 
- Falar é fácil meu amigo, difícil é agir dessa forma. Você sabe o que é chegar em casa, depois de um dia estafante, e não ter ninguém para compartilhar dos seus ais? Para ouvir tuas queixas e tuas façanhas? Você sabe o que é enfrentar um monte finais de semana, sem nada para fazer, a não ser ficar sentado ao lado do telefone esperando que alguém se lembre de te dar um telefonema - te falar umas palavras carinhosas ou até para te perguntar se ainda não resolveu morrer? Você sabe como é horrível passar dias, meses, anos falando sozinho dentro de casa e ouvir sua voz chorosa bater nas paredes e voltar sem respostas? Você sabe o quanto é ruim matar a saudade dos teus filhos e netos, sangue do teu sangue, apenas por fotos desbotadas e antigas? Tudo isso, você vai aguentando até chegar ao limite máximo, e então, sem ter capacidade para resolver a situação, resolve abrir mão de tudo e buscar, com um mergulho na imensidão, o fim de suas aflições.
 
Essa exposição de argumentos prós e contrários prolongou-se por algumas horas, sem que os dois interlocutores se dessem conta, do correr do tempo e do adiantado das horas. Até que o pretenso suicida, olhando ao seu redor, comentou:
 
- Nossa! O sol já está despontando no horizonte e eu não consegui concluir a minha decisão.
 
- Pois é, nossa conversinha foi pra lá de boa, né? Nóis nem percebeu a noite se acabar.
 
- Sabe de uma coisa? Durante todo tempo que conversávamos no escuro, eu ficava tentando imaginar como você seria, qual seria sua aparência.
 
- É? I acertou na imaginação?
 
- Não. Tudo que imaginei não foi ao encontro com a figura que agora, no claro, estou vendo. Pelo tom grave de sua voz pensei que era um homem de baixa estatura, totalmente careca, e bastante moreno, um negro talvez. E o homem que tenho à minha frente é de estatura mediana, bem clarinho, com abundantes cabelos desgrenhados e barbas ruivas. Como pode ver, não sou nada perspicaz em deduções concretas. Apenas tenho certeza que o homem que falou comigo a noite inteira tem um coração maior que o peito dele. Como ele diz, pode não ter nenhuma leitura ou cultura, mas por causa de sua bancada escolar, a rua, tem uma sabedoria tão grande que nenhuma universidade seria capaz de lhe transmitir. Tem um bom senso capaz de escancarar verdades ao mais letrado de seus antagonistas.
 
- Saiba Tonho, que depois de tudo que vivemos e conversamos nestas últimas horas, serviu para desafogar meu coração, desanuviar meus pensamentos e resfriar minhas emoções. Desta forma, a ideia que para cá me trouxe, já não está mais a martelar minhas entranhas.
 
- Ta vendo? Assim é qui si fala. Agora, quem tá feliz sou eu.
 
- Tonho, é esse seu nome não é?
 
- É sim senhor, a suas orde.
 
- Pois bem Tonho, tudo o que você me falou, com a simplicidade que lhe é peculiar, calou fundo no meu peito e eu, realmente, desisti de dar o mergulho fatídico, mas os motivos que estavam me levando ao suicídio vão continuar. O que será que eu faço para não sofrer tanto?
 
- É facir, meu amigo, sempre que tiver sentido essas coisa, lembra de mim e vem pra cá bater um papinho, estou todas as noites por aqui.
 
- Ótima ideia! Posso vir, trazer umas comidinhas e ficar conversando com você até não aguentar mais. Será ótimo, você me fazendo companhia e eu fazendo companhia para você.
 
- Num precisa trazer nada, num sou interesseiro. Só a companhia já vai me fazer contente. Di verdadi, eu também tenho a solidão por cumpanhera, mas craro, que uns comes e uns bebericos não vão fazer mal prá ninguém.
 
- Bem, então estamos acertados, agora vou pra casa tomar um banho e sair para trabalhar um pouco.
 
Ambos, no mesmo instante, como se estivessem muito ensaiados, estenderam as mãos e deram um forte e demorado aperto nelas.
 
No limiar da escadaria, ele olhou para trás e, muito emocionado, disse:
 
- Obrigado Tonho, devo-lhe minha vida! Hoje à noite continuamos nosso papo.
 
- Até a noite então, meu amigo.
 
Soube que essas conversas noturnas aconteceram por um tempo muito grande, mais de ano. Até que um dia Tonho, sentindo falta do amigo, dias depois que ele havia ido, não voltando a encontrá-lo, rezou um Pai nosso por sua alma. Tinha a certeza de que ele havia partido por obra e arte do imponderado, sem ter sido obrigado a mergulhar na imensidão. Virou-se para o lado, acomodou-se e antes de pegar no sono resmungou:
 
- Vai em paz, meu irmão!
 
E-mail: misagaxa@terra.com.br
Localização da história
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 23/07/2014

Miguel... Miguel... não tenho palavras para comentar a beleza, a profundidade do conteúdo do seu texto. Tenho passado por uma fase em qwue eu também mergulho em sensações assim: da crueldade que o abandono traz depois de tanto empenho nas relações. Você se superou. um abraço e, mais uma vez, a emoção foi grande. Meus parabéns, meu querido amigo.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 23/07/2014

Miguel, é uma verdadeira história de vida, reflete uma dura realidade mas também nos mostra que as vezes uma palavra amiga serve de consolo e nos ajuda a continuar na batalha, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 22/07/2014

Miguel, neste instante, pouco antes de ler seu texto, acabei de falar com meu filho, Moacyr em Londres, pra lhe informar que estava pra fechar negocio com meu carro. Vou dar de entrada e financiar o saldo, pra comprear um novo. Esperei um cumprimento de meu filho e ele, simplesmente, a mim e a Myrtes, ao meu lado no Skype, disse: "Mas como vcs vão poder pagar as prestações, vcs já velhinhos... Velhinhos, Mô, mas, vivinhos, tenho 5 filhos e se der crepe, mando cobrar de vcs..."

Logo depois ele se desculpou e, depois de 10 anos trabalhando no estrangeiro, volta na próxima semana, definitivamente.

Gostei da sua crônica, Miguel, parabéns.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 22/07/2014

Muito bom ! muito bom o seu texto , realmente e uma licao de uma vida , que hoje em dia a gente pode classificar como real.Principalmente neste pais donde vivo. Os velhos sao esquecidos pelos familiares que mudam para lugares donde o inverno e menos severo como a Florida donde moro. E os filhos so aparecem para recolher o que sobrou dos seus bens. Verdade seja dita com uma parcela de culpa dos proprios progenitores, que quando os filhos completam 18 anos sao convidados a sair de casa , com rarissimas excessoes . Lembro que quando um dos meus filhos ja com quase 30 anos , que vivia conosco saiu de casa pra morar com amigos em um pequeno apartamento , da nossa parte foi uma choradeira , porque nossa cultura e diferente. E somos uma familia unida . Tenho tres filhos homens , e o mais novo mudou da California para a costa leste com a sua familia para ficar do nosso lado.Ele alugou sua casa la e comprou uma num condominio bem em frente a minha residencia e esta sempre procurando nos apoiar . Parabens pela exelente cronica , gostei muito. Abracos Felix

Enviado por João Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 21/07/2014

Uma história de conteúdo forte em emoções que nos faz refletir sobre o sentido daquilo que imaginamos certo em nossas vidas, mas que está acima do ponderável sentido de viver e ser útil para servir o próximo.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
« Anterior 1 Próxima »