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Categoria - Outras histórias Minhas tias... Autor(a): Walquiria - Conheça esse autor
História publicada em 18/09/2014
Lembro da minha tia Ondina, ela morava na Parada Inglesa, Zona Norte de São Paulo. Era a irmã solteirona do meu pai... Nossa que palavra feia: solteirona! As pessoas pronunciavam baixinho, escondido e com medo. Tinha gente que até batia três vezes na madeira para não acontecer essa desgraça com nenhuma de suas filhas. 
 
E foi assim que eu cresci: tendo medo dessa palavra. Casei-me aos 19 anos, achando que realmente era a hora, pois a gerente do escritório onde eu trabalhava já tinha vinte e cinco anos, e ainda não se casara. Isso era motivo de chacota, as escondidas dos colegas e conhecidos. “Agora não casa mais” diziam alguns, “nesta idade não se escolhe mais”, “tem que casar com o primeiro que aparecer ou se candidatar”, “ou fica para titia”...
 
Hoje quando vejo as moças completando os trinta, trinta e cinco anos e dizendo: “Calma não tenho pressa!!!”. Ou então apenas morando junto, pois casar já era! “Isso é apenas um papel”. Eu vejo o quanto as coisas mudaram... E filhos então? Acabou a pressa. Mulheres planejam tê-los depois dos 38 anos e dizem que dá muito tempo.
 
Realmente, casar-se antes dos 25 anos é jogar fora uma parte da juventude e do aprendizado da vida. Aos trinta anos é uma decisão mais adequada e madura se viver a dois. Temos a sabedoria de driblar as diferenças e dar ênfase apenas ao que importa, deixando de lado muitas “picuinhas” - o que não é tão fácil assim no dia a dia. Depois dos 35 anos tudo é mais calmo e de um entendimento maior.
 
Eu esperei minha mãe falecer para tomar mais coragem e começar a amadurecer a idéia da separação - outro tabu de antigamente. Para ela, era uma derrota quando um filho se separava. Mas aceitar a separação das filhas era inadmissível. “Ruim com ele, pior sem ele!” Êta provérbio antigo que se arrastou durante tantas gerações de mulheres...
 
Aprendi com a modernidade e com minhas filhas, a não estranhar mais nada. O que importa é ser feliz, ter normas e ser um cidadão do bem. Casar ou morar junto é tudo igual. O pior é que é mesmo! Separar e casar de novo também é um ato de ser e deixar o outro ser feliz. Eu também acho. Ter um filho com 39 anos foi uma benção para minha nora, que me deu um netinho lindo e loirinho como um príncipe... Eu acho uma maravilha mulheres darem à luz depois dessa idade.
 
Voltando lá na Parada Inglesa, na casa da minha tia Ondina, onde parte dessa memória foi ficando apagada com o tempo... 
 
Alguns detalhes ainda permanecem. Lembro que, às vezes, minha mãe mandava eu e meu irmão levar um bilhetinho para ela. Até hoje imagino que este papel pedia algum tipo de ajuda. Minha tia pedia para a gente esperar lá fora, até se arrumar toda para abrir a porta do quartinho de fundos, onde morava.
 
Dizia minha mãe que ela nunca atendeu ninguém sem se pintar com um batom vermelho, fazendo uma pinta de lápis preto acima dos lábios e desfiar aqueles imensos cabelos pretos, prendendo no alto da cabeça e deixando vários cachos encaracolados caídos nos ombros.
 
Suas roupas pareciam de boneca: cheias de fitas e babados. Eu adorava ir até a casa dela, pois eu a imaginava como uma artista. Lembro que próximo a sua casa morava minha tia Yolanda, também irmã do meu pai, e a gente aproveitava para ir à casa dela. Ela nos dava uma caneca com café e um pedaço de pão (não lembro se tinha manteiga), mas era delicioso. Tenho foto dessa minha tia até hoje.
 
Um das tias com quem eu mais me esbaldava, era minha tia Cida. Lembro dela sempre sentada na máquina de costura, com uma voz gostosa de ouvir, falando do seu único filho, meu primo Zézinho. Ela era uma mulher muito bonita e gentil, nos dava um pedaço de bolo feito por ela e abria um largo sorriso enquanto a gente comia. Para mim estas imagens são inesquecíveis...
 
Seu filho se tornou famoso nos anos 1970-80. Era (ou é) diretor e ator de filmes nacionais com o nome artístico de Deni Cavalcanti. Eu por muitos anos tive uma vontade imensa de procurá-lo e de saber dessas minhas três tias, irmãs do meu pai, do qual eu nunca mais tive contato... Que sempre me esperavam com sorrisos lindos e um pedaço tão saboroso de bolo... 
 
E-mail: walquiriarocha@yahoo.com.br
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Publicado em 25/09/2014

Almir,estou fora do tempo,errei nas datas,o mês é o de setembro(e não julho como coloquei)retificando A história foi publicada em 18/9 e a minha tia Cida mãe do Deni faleceu no dia 22/9

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 24/09/2014

Obrigado Almir,eu localizei o Deni Cavalcanti no face book e lhe mandei uma mensagem,espero que ele leia,mas o que me tocou foi que ele postou no face dia 22/7 segunda feira a morte da sua mãe, minha tia Cida,da qual eu lembro até hoje daqueles olhos lindos e sorriso cativante...e a minha história foi postada na sexta feira dia 19/7 Confesso que fiquei muito triste,ela era o último elo de irmãos por parte do meu pai,que nunca foi presente,e que saiu de casa quando éramos pequenos e só voltou quando éramos adultos e casados.Nenhum de nós conseguimos fazer amizade com ele(acho que faltou o perdão)por isso perdemos o contato desde criança com estas tias...Agradeço imensamente sua idéia muito OBRIGADA!!!

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 24/09/2014

Olá Walquiria.

Deni Cavalcanti tem perfil no Facebook.

Segue link:

https://www.facebook.com/profile.php?id=100004682173274&fref=ts

Enviado por Almir . - almir1960@hotmail.com
Publicado em 23/09/2014

Se o Mario Benevenuti é filho do seu pai,também é seu irmão ou meio irmão e o Nenê dos Incríveis se é irmão do Mário também é seu irmão!!

Mas isto não importa foi só mesmo para te dizer que ninguém foi e nem será maior ou igual aos inesquecíveis "Incríveis" mesmo com algum integrante em outro planêta eles são os mais eternos e estupendos músicos que tivemos por décadas nas paradas e com sucesso garantido por onde passam e cantam...(e encantam!!!)

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 22/09/2014

Mais pornochanchada que o seu primo Deni, só o Mario Benevenuti (filho do Papai e irmão do Nenê/ Incríveis. Aquele tipo de filmes apesar de toda malícia eram inocentes perto dos que hoje são feitos!

Enviado por juca - jucabala@hotmail.com
Publicado em 20/09/2014

Wal, agora com toda essa tecnologia, talvez você possa encontrar alguém, eu tive a grata satisfação de encontrar amigas de 40 anos atrás e também de fazer novas amizades átravés de Orkut e agora Facebook.

Assim como nós, acabamos nos conhecendo através deste site.

Espero que você consiga pelo menos contato com os primos(as).

Beijos.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 19/09/2014

Walquiria, como é bom relembrarmos os bons tempos de nossa juventude, hoje os conceitos familiares mudaram muito, parabéns pela bela homenagem que você presta às suas tias, espero que as encontre algum dia, continue escrevendo.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 19/09/2014

Bonita homenagem as três tias, Walquíria, pena que vc não poude se encontrar com suas parentes, outra vez. Bem redigida, essa dedicatória reflete o amor que vc dedica a elas durante todo esse tempo. Parabéns, Wal, tomara que vc as encontre, pelo menos seus destinos.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 19/09/2014

Todos nós temos um carinho imenso por uma ou por algumas das nossas tias. Eu, por exemplo, amava tanto minha tia Helena, sem desamor pelas outras, que dei o nome dela a minha filha mais nova.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 18/09/2014

Pois é Wal, quanta coisa mudou nesses ultimos 30 anos e voce descreveu bem, estão derrubando todos os tabus, pena que as leis não acompanham essa realidade, párabéns ,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
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