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Categoria - Outras histórias Oito dias numa UTI do Incor: coisas que nos vêm à mente Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 17/09/2014

- Tragam ele prá cá, bota no leito no leito 34... Depressa... O paciente está encacando... Ele vai travar, anda, anda! Deixa o ressuscitador do lado, monitoriza...  Todo mundo, olho vivo prá ele não parar, não me deixem esse cara parar... Me veja logo um acesso...Vamos pessoal, no pique... Analgesia com Tridil... PA e pulso, quero aferição de hora em hora... Pessoal, cês tão demorando demais... Tão parecendo um bando de palmeirenses!... Amigo, o senhor sabe onde está? O senhor sabe seu nome? Que dia é hoje?

 

- Sei doutor, tou no Incor e meu nome é Ignácio... e sei lá que dia é hoje, pôrra! Tô com muita dor, faz alguma coisa pelo amor de Deus que eu vou morrer...

 

- Presta atenção, nego véio! No meu plantão cês tão proibidos de morrer e fica frio que já já a gente tira o senhor dessa situação... A enfermagem vai dar 4 aspirinas pro senhor mastigar e vão colocar um comprimidinho embaixo da língua... Quase 200 de batimento e o senhor ainda tá aqui com a gente, é um recorde, carambalho! Coração forte de corinthiano, né? Quero sangue de rotina, gazometria, colher urina, se não conseguir urinar, sonda de alívio...

 

Não estou lembrando qual foi o ex-presidente do Palmeiras que atendi a pedido do Prof. Vicente Amato Neto em meus tempos de HC. Minha cabeça está girando, pesada, e mesmo que lembrasse não poderia declinar seu nome por questões éticas, sigilo profissional, aquele parangolé todo. Para cuidar do velho, lavar sonda vesical e trocá-la a cada uma ou duas semanas, eu dobrava meus vencimentos em duas horas de trabalho suave, normalmente aos sábados e domingos. A família me olhava desconfiada, pode parecer até preconceituoso pensar nessas coisas, mas o Dr. Amato quando me apresentou disse na gozação: "Esse é o Joaquinzão, trabalha com a gente na Infectologia, grande corintiano, não precisam ter medo!".

 

Olhares desconfiados, corleônicos!

 

O paciente balbuciava, já quase passando pra outra margem do Lettes, o “esquecer para sempre”. "Madonna mia, dói questa sonda... dói molto...", num linguajar mais pro Bexiga do que para a Calábria!

 

Manusear as sondas provocava sangramentos, doridos gemidos e urros. Me lembro bem. A uretra do velhinho caquético era uma chaga só. “Não quero ser sondado, vou mijar nem que seja a última coisa que eu possa fazer na minha vida”. Que pensamento mais idiota! Acorda malandro, fica esperto, você já tem mais de 70 anos, se ajuda... “Quero um papagaio!”

 

A maneira de ver a situação em que me encontrava, a partir de um leito do Pronto Socorro Coronárias do Incor, me fazia crer que dessa vez nem São Zerbini poderia livrar minha cara. A dor que sentia era alucinante, lancinante, não em aguilhão ou em pontaços de lança, mas era como se meu coração quizesse explodir... Preso numa morça anatômica, batendo 182 vezes por minuto; eu sentia a dor em meu peito, Ah, a dor! Ah, a dor! Meu corpo vibrando, suor frio, dor, temor.

 

Se uma dor pudesse ser medida numa escala de 01 a 10, poderia dizer que era 11 ou 12, 15, sei lá... Dor absurda, vou morrer sozinho, entre gentes desconhecidas e vultos sombrios vestindo branco, um branco sujo e de sabor amargo, é isso mesmo! Branco de sabor amargo, sombrio. Bips dos monitores, gritos, choro, ranger de dentes, ruídos metálicos dos carrinhos de ressuscitação, vozes às vezes altas, às vezes baixas e se misturando ao “brouhaha” dos tristes acordes dodecafônicos dentro de uma UTI... Requiem Opus XIII.

 

Acho que tenho 4 anos ou menos e estou chorando. É a minha primeira lembrança de dor, o braço direito fraturado durante uma brincadeira com meu pai, um doce de homem, meu mestre Zumbi, meu herói. Fiquei gessado por cerca de 8 meses e acabei por me tornar canhoto, mas aprendi a escrever o cursivo com a mão direita, depois de muitas reguadas na mão esquerda. Outro tipo de dor, dadas por D. Ludovina, minha professora do 1º ano do G.E. Rodrigues Alves, em 1948, um doce ambrosíaco de professora, não estou sendo irônico...

 

"A pata nada. A pata é da Dadá. Pata pa, nada na...", o Professor Sodré me vem à mente.

 

Os bondes na Avenida Paulista, “um passinho à frente, faz favor”... Uma vez pisei de propósito no dispositivo que acionava o sino de alerta do bonde. Criei coragem e pisei mesmo, ninguém viu. Precisei pisar com toda força, eu era muito magrinho, levezinho. No bonde, minha mãe limitou-se a olhar feio pra mim; em casa apanhei mais que boi ladrão "prá aprender a não brincar com coisas sérias".

 

Uma redação falando sobre o Dia da Árvore acabou por me colocar numa disputa escolar, através do jornal "O Tempo".  Venci, aquela história juliana do vine, vidi, vinci. Fui entrevistado e minha foto saiu no jornal, fiquei muito orgulhoso, me achei o máximo, o “bam bam bam” mais idiota daquela paulicéia dos anos 1940! Eu e o então governador Adhemar de Barros plantamos a muda de uma árvore no ponto mais central do jardim do Rodrigues Alves, em frente ao Hospital Santa Catarina. Acompanhei durante décadas o desenrolar da vida de minha “árvore”, mas, com o alargamento da avenida, ela foi abatida. Fiquei muito triste por não ver mais minha companheira de infância, e ainda bem que não vi sua queda. Eu não iria gostar nem um pouco.

 

Já fui varzeaninho, treinei uma semana no Estrela da Saúde com o Sr. Renato e o Sr. Salim Atala. Claro que não deu pra mim, eu era muito ruim. A primeira vez que joguei prá valer foi no Nacional do Caxingui. Estava tão excitado que dormi com o uniforme do time...

 

Não sei das horas, se é dia, se é noite. A UTI não tem janelas; um sol frio e fluorescente me obriga a manter os olhos fechados quase o tempo todo; ar muito frio, o diabo daquele ar gelado dos centros cirúrgicos, filtrado, seca minhas mucosas. A dor vai passando, mas ainda estão lá, as sombras do medo.

 

A Odete veio me visitar, nós dois choramos muito, estamos sem voz, não estamos no auge de nossas condições de saúde, astenias conjugais.

 

Não consigo comer a dieta assódica, horrível, “Precisa comer 'seu' Joaquim, comida em hospital faz parte da terapia..."

 

Odete trouxe uma coxinha de uma rotisserie que fica na Três Irmãos, mas não comi. A “Enfermeirona” viu e pediu que a Odete a levasse de volta:

- "Leva pro Thomas, Dé, ele gosta muito, esquenta no micro, mas não põe pimenta..."

 

- Essa enfermeira é uma chata!

 

- É... ela é um pouco nazistona, tem complexo de Florence Nightgale, só finge ser gente fina, aparece só em horário de visitas; é um pé no saco...

 

O médico veio ao meu leito:

 

- 'Seu' Joaquim, a gente vai liberar o senhor. Achamos que essa taquicardia é decorrente da dose excessiva do Puran. 175mg é uma dosagem muito elevada pras suas condições... Precisamos desintoxicar seu organismo... Vou dar receita e encaminhamento, vai dar tudo certo, não esquente a cabeça!

 

Meu filho caçula, o Caio Graco, me resgatou do Incor. Odete não quer mais dirigir. Cheguei em casa passava das onze da noite.

 

Estou em casa, com minha esposa, meus filhos, meus netos e 3 cadelinhas; meu filho mais velho, o Júlio, antecipou sua saída de Nova York, para onde fora a negócios, e veio me ver, todo assustado.

 

Ainda não foi desta vez! Oujuobá sem terreiro, longe da crença tem dezenares de anos, clamei pelos ancestrais Xangô, Oxossi, Obaluaiê/Atotô e Ogum, ninguém respondeu, nenhum sinal. Vou cantar prá subir, sem duvidamente, hoje ou sei lá que dia; ainda não ouço os tambores do Axexê, que bom!

 

Ainda estou por aqui.

 

E-mail: joaquim.ignacio@bol.com.br
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Publicado em 27/10/2014

Belo caso, Joaquim, com altas doses de suspense, ritmo ágil, alucinante. Cortes, plano sequência, fusões...como um filme de suspense médico. E com final feliz.

Mas, não tem mesmo jeito, um dia a gente sobe que sobe. Enquanto isto, segue a dura batalha pela vida. Abraços.

Enviado por Luiz Simões Saidenberg - lssaidenberg@gmail.com
Publicado em 26/09/2014

Duro na queda, para nos contar como é ! E contou muito bem. Saúde, vamos em frente.

Enviado por Marina Moreno Leite Gentile - dagazema@gmail.com
Publicado em 19/09/2014

Que bom que o corintianão ai ainda está por aqui, e ainda há de ficar muito tempo antes de cantar para subir. Subiremos sim, um dia todos subiremos, mas por enquanto vamos ficando por aqui. Até quando Ele quiser.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 19/09/2014

Uma atraente exposição do que é a Incor comentada e redigida, com muitas vertentes e curiosidades por um mestre da escrita: Joaquim Ignácio de Souza Netto. Parabéns, Joaquim.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 18/09/2014

Joaquim, que DEUS o conserve e o Incor também e mantenha seus escritos, Estan

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 18/09/2014

Nossa enquanto seu coração disparava...um resumo da sua vida em forma de filme passava pela sua cabeça...As vezes tenho até vergonha de responder quando alguém me pergunta se já estive internada,ou se tomo algum remédio...tenho que dizer não!!!mas eu adoooro hospital e me candidato sempre a ficar com alguém da família que precisa ficar internado só para comer a comida e passar a noite lá.

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 17/09/2014

Graças a Deus os tambores não rufaram e você não subiu!

Na verdade amigo, estamos nos minutos finais do primeiro tempo da prorrogação e espero que esse juiz FDP`não esqueça de acrescentar os mais de 10 minutos que o jogo ficou paralisado por causa daquela expulsão.

Agora, com relação ao texto, é mais uma obra prima desse emérito escrivinhador. Adorei!

Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 17/09/2014

Joaquim, maravilhosa descrição de uma estadia hospitalar com os mínimos detalhes, felizmente o amigo recuperou-se para a nossa alegria e podermos lers suas histórias, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 17/09/2014

Amigos, eu escrevi esse texto para que fique bem clara a capacidade profissional do pessoal do INCOR que conseguiu me tirar de uma situação extremamente grave pela 4ª ou 5ª vez, apenas este ano 2 vezes. Enquanto der vou continuar escrevendo e espero escrever sobre assuntos mais amenos.

O INCOR pode perfeitamente passar como o Pátio dos Milagres de "Notre Dame de Paris" do Victor Hugo, com doentes verdadeiros e curas verdadeiras.

Ignacio

Enviado por Joaquim Ignácio de Souza Netto - joaquim.ignacio@bol.com.br
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