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Categoria - Outras histórias Coragem para ser feliz Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 19/09/2014

A sala não estava preparada para um baile. Sobre a grande mesa retangular de madeira bem trabalhada os pratos grandes de brigadeiro exalavam os momentos felizes de mais um aniversário. Beijinhos de coco, igualmente em forminhas azuis, mais ao centro, fazendo uma silenciosa parceria com os cajuzinhos delicadamente modelados pelas mãos adocicadas da minha sogra. Nem sempre mãos adocicadas! O meu marido costuma dizer que a mão da mãe era por demais pesada quando os filhos costumavam exagerar nas peraltices.

O guaraná Brahma acompanhando os lanches com carne muito bem temperados. E muita conversa! Os convidados iam chegando e trazendo na alma, cada qual, um universo recheado de momentos felizes em meio às dificuldades da dura existência numa São Paulo que foi se definindo pelo trabalho, pelas distâncias e pelas incertezas. E cada um trazia sorriso farto. Presentes? Claro, recebidos com carinho. Mas o presente maior, indizível, era o comportamento de todos eles: uma amizade arraigada, um companheirismo sem conta, de décadas carregadas de partilha, de visitas ainda frequentes e muitas razões para gargalhadas profundas e reverberantes.

Casa cheia, as cadeiras ocupadas pelos mais velhos quando, repentinamente, alguém colocou uma música e nos pusemos a dançar. Os pares foram se formando, as crianças entrando no sabor da alegria. E, de repente, era o tio dançando com o sobrinho, o mais alto dançando com um baixinho, tio dançando com tia- avó... e o primo tímido, no cantinho, parado, só filmando.

E o meu filho fazia mais um aniversário naquele dezembro, naquele tempo de celestial encontro da primavera com o verão, se entrelaçando nas promessas de vida, com folhas e flores deslumbrantes se banhando de sol, esbanjando vida e arte pela cidade que pulsa, vibra, se atrapalha, se mexe, se espreguiça, toma ônibus e metrô e respira aliviada quando chega mais um sábado.

E as pessoas dançavam. Felizes e achando graça.

E todos tinham na alma, além da beleza, serenidade, companheirismo e sofrimento o valor da identidade. Coisa única, intransferível, com um sinal do sagrado, da garantia da existência.

Não se usava Ipad, Ipod e smartphone naquele tempo. Ninguém ficava com cara de bobo mandando mensagem o tempo todo e fazendo selfie para se mostrar feliz para não sei quem. Quem sabe, mensagens e fotos para os milhares de seguidores e “amigos” virtuais, que supostamente nunca se abraçaram, nunca se olharam nos olhos ou mesmo nunca riram alegremente de uma piada inventada no calor da hora. A gente simplesmente ERA feliz naquela simplicidade, no ficar fazendo os docinhos em casa mesmo, sem ajuda de buffet e sem garçons para servir os visitantes. A gente ia fazendo tudo: fritando os salgados, conversando na cozinha, abrindo um saco de pão sobre a mesa e as pessoas fazendo os seus próprios lanches, sempre naquele gesto espontâneo de viver o momento do encontro, a maior das artes dessa espécie que corre riscos seríssimos de extinção.

A festa foi linda naquela casa da vila Sônia. Na sala, espontaneamente, com os corpos dançantes, as pessoas resolveram demonstrar gratidão à vida, à memória e à beleza do estar junto.

A profunda alegria que guardo da vida é ter tido o privilégio de apresentar tudo isso ao meu filho, o meu Vinícius. A felicidade se materializando, se manifestando numa sala de uma casa muito simples. Os doces sobre uma mesa que foi adquirida para juntar ainda mais a família no momento do casamento do filho mais velho, as pessoas se abraçando, sorrindo sem economia e dançando obedecendo ao sopro do tempo.

As páginas dos calendários começaram a ser arrancadas com mais rapidez e muitos deles atravessaram o rio da existência.

Muitos, muitos tiveram que partir. Junto da felicidade de terem existido ficou um dissabor monstruoso, inquieto, que me arrepia, me amargura e me constrange: como viver nesses novos tempos, numa era de insensibilidade, de fracasso das relações, de falta de compaixão e de amor à simplicidade do existir?

 

E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 16/11/2014

Nesta era da velocidade da informação ler um texto tão belo mostrando a simplicidade e beleza do cotidiano é muito gratificante.Parabéns!

Enviado por Flor de lótus - anamarisfigueiredo@gmail.com
Publicado em 31/10/2014

Vera ! Lindo, lindo, tambem passei por estas festas familiares onde todos colaboravam e davam o que de melhor tinham, quantas saudades daqueles papos alegres sem malicia, sem celulares, sem essas tranqueiras que está afastando cada vez mais as pessoas, parabens, atrazado mas com muita emoção. 31/10/014 Marquezin, abraços.

Enviado por João Marquezin - joaomarquezin@yahoo.com.br
Publicado em 27/10/2014

Belos momentos do passado, Vera. Realmente, as coisas mudam, e com rapidez cada vez mais espantosa...mas não tem jeito. Temos de continuar nadando, arrastados pela maré do Tempo. Paulinho da Viola cantou- "Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar".

Vamos nessa onda. Abraços.

Enviado por Luiz Simões Saidenberg - lssaidenberg@gmail.com
Publicado em 20/10/2014

Querida: são essas lembranças que nos mantêm ainda com forças para viver.

Conte sempre, conte mais... Recordar é viver! Re-cor-dar é dar novamente cor a lembranças tão queridas.AbraÇO FRATERNO.

Enviado por Neide Gaudenci de Sá - neidegsa@gmail.com
Publicado em 26/09/2014

Vera, mais uma vez você nos brinda com um relato maravilhoso, me fez lembrar também as festas em minha casa, alegres e repletas de amor, ainda hoje procuro manter esse clima aquí em casa mas está dificil, é "tablet", "Ipod" e outros instrumentos que não permitem mais o diálogo entre nós, parabéns pelo saudoso texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 25/09/2014

Vera:

Uma delícia de texto. A paradoxal sensação entre o doce e o amargo, nas nuances que a vida vai nos apresentando.....e não tem volta..

Peron

Enviado por Luiz C. Peron - luizcperon@bol.com.br
Publicado em 23/09/2014

Eu ouvi uma vez uma senhora de uns 70 anos dizer que fez para os filhos lindas festas de aniversários com músicas, amigos e familiares presentes todos em uma alegria sem fim e belos e inesquecíveis Natais com Papai Noel e amigo secreto,também com a união de todos,Ela queria que fosse um exemplo para que seus filhos repetissem o mesmo com os próprios filhos e assim por diante...Mas ela não contava com a tecnologia e os Bufets Infantis, cheio de regras e como disse a Júlia,deixa-se o presente em um saco na entrada,sem ao menos poder ver a carinha de felicidade da criança que ganhou!!!

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 23/09/2014

Pois é, minha irmã querida.E estamos nós aqui e agora, tentando resgatar um tempo que alegre ou triste, feliz ou infeliz, bom ou ruim, seja como for, passou e marcou. Onde a gente ia na casa das gentes e a gente se conhecia por ser filho deste ou daquela, mas que todo mundo sabia quem era quem. Onde será que ficou tudo isso?????

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 22/09/2014

Vera, como são lindos os momentos passados em família! E são nessas reuniões familiares que fortalecemos ainda mais os laços que nos unem.

É na simplicidade que estão as melhores coisas; o amor, as conversas, as risadas...

Hoje, diferentemente de outros tempos, instalou-se o distanciamento entre as familias, a falta de diálogo, a falta de compaixão...

Mas, com nossos exemplos, somos estacas em nosso lar, onde podemos fazer florescer e frutificar os valores familiares que nos foram passados.

Assim, procuro exemplificar em minha casa, para que não se perca esse elo e no futuro venhamos a ter saudades dos tempos atuais.

Felicidades.

Niderce Teresa

Enviado por Niderce Teresa Martins - niderceteresa@bol.com.br
Publicado em 22/09/2014

Vera, quanta saudadess, nostalgia de um passado recente bem elabotado, onde as festinhas de aniversário era diferentes das de hoje, antigamente se conversavam, hoje cada um no seu canto de cabeça baixa mexendo constantemente nos celulares, parabéns, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
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