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Categoria - Outras histórias Radiofonia Sintonizada Autor(a): Modesto Laruccia - Conheça esse autor
História publicada em 12/09/2014
Num destes dias, na procura do improvável, encontro o provável repouso de minhas... (interrompo minhas linhas pra degustar, pela Rádio Cultura, um arranjo de Lizt, da La Campanella, de Paganinni, uma verdadeira maravilha... vício de rádio) ...preocupações.
 
Dentro das várias recorrências, a fim de minimizar um torpor inconsciente, por demais incômodo, me valho de um dos mais antigos e reconfortantes meios de aparar suas ásperas arestas. Esse estado psíquico requer a intervenção da pureza, em matéria de conforto que, além de esmaecer suas tonalidades chocantes, tem o dom de alegrar, também, nossa existência: o rádio.
 
O rádio aqui, em nossa querida cidade de São Paulo, tem muitas histórias pra serem contadas, de múltiplos ângulos e de várias épocas. Seus primeiros profissionais tiveram a ventura de serem pioneiros em uma atividade nova, sem nenhum parâmetro a se orientar. 
 
O sistema radiofônico norte americano que, na década de 1930 já possuía um bom “broadcast” da radiofonização, foi muito útil no inicio das atividades aqui no Brasil. Não a toa, o linguajar dos locutores brasileiros ainda tem presente alguns termos de origem inglesa, tais como, “broadcast”, “speaker”, “cast”, “córner”, “off-side”, “hands”, “gol-kyper” e por aí afora.
 
Quando estava obtemperando nas respostas sobre estes fatores, eis que deparo, novamente com ele, o M-2, meu fiel companheiro de mais de oitenta e dois anos. Passamos a dialogar sobre o rádio de nossa época. São Paulo tinha nas audições, uma das suas principais atrações diárias.
 
- Oi, Modé, vc lembra, - começa o M-2 - quando a rádio tinha poucas estações? Paravam as programações as 14h e reiniciavam as 19h. A gente brincava na rua Assumpção, tendo a nossa frente a lateral do Palácio das Indústrias e o perfil, na época, da nossa querida cidade onde despontava o prédio mais alto do Brasil, o Martinelli.
 
- Lembro, sim! - respondi - E as programações que começavam, naquele tempo, logo após o término da Segunda Guerra Mundial? Na época, três de minhas queridas irmãs trabalhavam em casa, (Ana, já falecida, costureira; Carmela, já falecida, e Maria, pespontadeiras de calçados) e tinham como laser um aparelho de rádio RCA, caixa de madeira, trinta por quarenta e cinco centímetros, equipado com válvulas, onde se ouviam os lançamentos de músicas brasileiras - Francisco Alves, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Isaura Garcia e toda aquela “velha guarda” -, com seus vozeirões, em sambas, marchinhas, valsas, chorinhos e toda a riqueza musical de nossa bendita terra, e se ouvia, também...
 
- É verdade - interrompe M-2 -, se ouvia muita música estrangeira, americana, espanhola, portuguesa, francesa, mexicana, árabe e, principalmente, italiana. Você lembra, Modé? Lembra dos programas de 30 a 60 minutos, voltados pra um único pais? Por exemplo, música portuguesa, só tocava fados, se não me engano, chamava-se “Saudades D’Além mar”; a americana era “Ecos da Broadway”; a árabe era “Saudades do Oriente”; tangos com Ricardo Diaz, na rádio Panamericana, (antiga rádio Kosmo) e um dos mais populares, o de músicas italianas, apresentado por dois irmãos, Arturo e Guido Capodaglio... Isso sem contar com as de músicas clássicas e as novelas, a maioria apresentadas ao vivo.
 
- Pois é, M-2, e agora, como estão as programações das rádios? Melhoraram, pioraram ou estão na mesma...?
 
- Ahhh, lembrei de uma coisa – interrompe M-2 - que só diz respeito a nós, descendentes de italianos, sabe o que? Quando morria algum parente, mais ou menos próximo, colocavam-se uma faixa de pano preto em sinal de luto, na lapela do paletó. E se o morto era muito próximo, a faixa era colocada também nas camisas, uma pequena faxinha no bolso, por dois anos. E no rádio, lembra o que acontecia, Modé?
 
- Sim, claro, ficava-se dois anos de rádio desligado, sem ouvir nada... como agora... só que por dois meses...
 
- Não entendi... desliga-se o rádio por dois meses, pra que...?
 
- No “Horário Político”, seu bobo.
 
E-mail: modesto.laruccia@hotmail.com
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Publicado em 21/09/2014

Como devia ser bom naquela época! Recordo-me ouvindo a antiga rádio Eldorado AM transmitindo músicas clássicas e reportagens de hora em hora com locutores com vozes barítonas..Belo texto...adorei!

Enviado por Luiz Carlos da Silva - lucasi__@hotmail.com
Publicado em 16/09/2014

Se fizerem uma pesquisa,99% da população desliga o rádio durante o horário político. E eu particularmente nunca assisti estes flamigerados e vergonhosos horários na TV.

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 15/09/2014

quando foi lançado o radinho de´pilha,foi uma maravilha a gente ia assistir os jogos no Pacaembu, ficava ouvindo o radio e vendo o jogo,

Enviado por João Cláudio Capasso - jccapasso2@hotmail.com
Publicado em 15/09/2014

Mo querido, foi muito bom ler este texto, principalmente por ele registrar um dialogo bastante consistente entre você e o M-2.

Com relação ao rádio, grande fonte de inspiração do início de minha vida artística, é ainda, meu fiel companheiro, durmo e acordo com ele ligado ao meu ouvido, trazendo as notícias que preciso ou não preciso sabe.

Valeu Mo!

Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 15/09/2014

Como sempre, um texto inteligente, bem escrito, envolvente, com detalhes pontuais e bem definidos... marca do sr. Modesto. Gostei muito de relembrar alguns cantores da velha guarda. Tenho aqui, muito bem guardado, um disco do Carlos Galhardo, que pertencia à minha avó. Já ouvi aquelas músicas muitas vezes, com emoção. Parabéns e um abraço enorme, meu querido companheiro de doces memórias.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 15/09/2014

Modesto,comecei a gostar e ouvir rádio no final dos anos 1950 e até hoje é companheiro, no acordar, no banheiro, carro e escritório, nunca morrerá,e sim atualizar, lembro de alguns termos que voce citou, muito bom, parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 13/09/2014

É verdade o radio continua sendo meu companheiro, logo ao levantar já ligo o rádio, na cozinha para começar o dia fazendo um cafézinho no capricho, quando vou passar roupas quem está lá meu radinho, costurando também.Mas como vc mesmo disse, no momento que inicia o horário político, eu desligo. Valeu Modesto.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 12/09/2014

Parabéns Modesto por esse texto revelando assim mais uma vez, o seu enorme talento para escrever humor fino,critico e refinado, desses que a gente já não vê mais em nossas rádios e muito menos em nossas tevês. Estou com muitas saudades de você da Mirtes e dos encontros das redondas.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 12/09/2014

Modesto, me lembro da minha infância quando meu avô Luiz ganhou um aparêlho de rádio do meu primo Benedito, ficava ligado o dia todo e só era desligado na hora do jantar ou do almoço, hoje eu também desligo o radio e a TV no horário politico, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
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