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Categoria - Outras histórias Três Verdades Autor(a): Marcos Aurélio Loureiro - Conheça esse autor
História publicada em 14/10/2014
Tenho seis filhos. Para os padrões de hoje são muitos. Um deles, Tiago, que mora no início da Av. Guapira,  no Tucuruvi, é um sujeito muito festeiro. Para ele, não é necessário ter um motivo para fazer uma festa. Qualquer motivo é bom, mesmo que seja só para reunir parentes e amigos. 
 
Foi numa destas festas sem motivo algum, que aconteceu o que passo a narrar.
 
Na festa, havia um rapagão, conhecido dos meus filhos e da minha nora, que estava ali porque andava gabiruzando a Janaina, irmã mais nova da minha nora.
 
Esse moço tem uns 23 anos. Menino bonitão, de porte atlético, todo empolgado.
 
Muito bem, certa altura da festa, minha nora resolveu pedir à minha mulher que fizesse uma torta de palmito, que, modéstia a parte, só mesmo a Dona Isabel, minha amada, sabe fazer. 
 
E ela, como gosta de cozinhar, logo se prontificou a fazer, mesmo com a festa em andamento. Postos os ingredientes da dita torta, chegou a hora fatal de abrir o vidro dos palmitos.
 
Não sei se vocês já perceberam, mas o maldito do vidro de palmito parece que é fechado para toda a eternidade. Nunca vi nenhum deles abrir com facilidade, mas eu sempre os venci. Alguns com mais outros com menos esforço. Mas sempre sai vencedor.
 
Vinham as duas, minha mulher e minha nora, trazer o vidro para que eu abrisse. Tomei-o pelas mãos, displicentemente pus a mão direita sobre a tampa e argh... nada. A bendita nem se mexeu, forcei novamente, agora com mais energia. Nada. Absolutamente nada. Arfei o peito, pus toda força na mão e ... agora vai. Que foi nada. A maldita tampa ficava ali, impassível.
 
Foi então que o tal do rapagão que, de longe observava tudo, interferiu:
 
- Posso tentar, seu Marcos?
 
Minha netinha, filha do Tiago, que tem 7 anos e também observava minha luta contra a tampa, ao ouvir o “possível futuro tio” pedir para tentar abrir o vidro retrucou:
 
- Imagina que você vai conseguir abrir o vidro. Se meu vovô que é grande e forte não conseguiu, você acha que vai conseguir?
 
Naquele momento me gelou a alma e mesmo sentido um frio na espinha e rogando a todos os deuses que ele não conseguisse abrir o maldito, entreguei o vidro ao garotão. Naquela hora eu aceitava tudo, não comer a torta, ter um calo no dedinho do pé, ter dor de dente, de ouvido, até entregar os títulos da Libertadores e o Mundial do meu Timão, para que ele não abrisse o vidro.
 
O menino fez pose, encheu o peito botou a mão sobre a tampa do vidro e meteu bronca. Não foi sem algum esforço mas, de repente a tampa fez ploft e girou. Nesta hora imediatamente meus olhos procuraram os olhos da minha netinha e o que eu vi quase me põe em prantos. Os olhinhos dela mostravam toda decepção que sua curta vidinha podia lhe trazer. Passado o momento, eu a peguei no colo e fui com ela até a varanda da casa, lá chegando, sentei-a no meu colo e disse:
 
- Bia, você acha mesmo que o vovô não conseguiria abrir aquele vidro? Claro que o vovô conseguiria, o vovô só não abriu para deixar que o rapaz lá abrisse, porque ele está querendo fazer bonito para namorar sua tia Janaina. Foi por isso que o vovô não abriu o vidro.
 
- Ah... vovô, então você não abriu para ele aparecer para minha tia Jana?
 
- Isso filha, foi por isso mesmo.
 
Pronto. Os olhinhos dela brilharam novamente e tudo voltou ao normal.
 
Claro que eu não me senti bem de ter feito isso, mas este episódio me trouxe três verdade:
 
1) O tempo é inexorável, ele passa e sempre virá o dia em que suas mãos já não serão mais tão fortes, e outras mãos fortes virão para nos substituir.
 
2) Mentir é feio e errado, mas às vezes, a gente faz sim, ainda que seja só para proteger a quem se ama.
 
3) A única coisa no mundo que você é capaz de amar tanto quanto você ama um filho são seus netos. Por eles a gente também faz de tudo, até mentir depois de velho (Coisa feia! Faça isso não, viu netinha. Pelo menos até você ter netos também).
 
E-mail: marcoslur_ti@yahoo.com.br
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Publicado em 05/12/2014

Uma história criativa e muito bem contada.

Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - anamarisribeiro@ig.com.br
Publicado em 22/10/2014

Muito bem, Marcos, aqui em casa sempre é assim eu, tento, tento e nada consigo, aí lá vou eu com o vidro para o maridão abrir, ele nem se esforça e a tampa abre.

Fico pensando que depois de tanto querer abrir e não conseguir, pelo menos acabo facilitando para ele, pois quando entrego o vidro a tampa já foi bem abalada.E isso não nenhuma mentira.kkkkkkkk

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 21/10/2014

Marcos, depois de ler essa bela narrativa, quero te lembrar que a Myrtes, minha querida mulher, também faz uma torta de palmito que é de cair o queixo. Pra abrir o vidro também tinha esse problema. Acontece devi ao ar comprimido no interior do frasco. Aprendi, depois de varias experiencias que, com a ponta de uma tesoura, pontuando na parte entre o vidro e a tampa ouve-se um "plof", libertando a tampa. É só desenroscar. Parabéns pela narrativa, Aurélio.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 18/10/2014

Marcos, eu imagino a força que você fez para tentar abrir a lata de palmito, realmente é dificil, mas no final você soube conquistar o olhar brilhante de sua querida netinha ainda que através de uma pequena mentira naquele momento necessária, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 15/10/2014

Aurélio, que situação e que menina esperta, mas uma mentirinha não faz mal a ninguem e parabéns pelo texto.

Quanto ao abrir o vidro de azeitona e outras conservas, concordo om a Walquiria semrpe faço o que ela relatou, quando o vidro é fechado na industria(rosqueado) a maquina da quatro amassadinhas na tampa contra a boca do vidro para dificultar a abertura dela, até por proteção nas gondolas do mercado. (muitos abriam o vidro e comiam o conteudo).

Em casa eu eu uso uma faca ou colher e forço um pouco o amassadinho original da tampa e "ploc", facil de abrir, mas é bom só um adulto fazer isso, parabéns pela cronica,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 15/10/2014

Lembranças que ficarão guardadas na memória de sua netinha. Temos nossos heróis e, com certeza, você é o herói dela. Espero que o rapaz tenha conquistado a Janaina. Av. Guapira e arredores, quantas boas lembranças e coisas vividas com minha família nessa região que, para mim, é acolhedora, de gente batalhadora, intensa em vida e rica em história da cidade de São Paulo.

Enviado por Consolata Panhozzi - cpanhozzi@gmail.com
Publicado em 15/10/2014

LINDO!!! LINDO!!! MUITO LINDO!!!Eu amei este diálogo com sua neta e sua modéstia perante você mesmo.Compartilho com voce estes sentimentos com os netos e tive até dúvidas se esta generosidade sua foi uma farsa...Eu tenho 5 filhos e as pessoas só estranham de serem todos do mesmo marido...GRRRRRRR

Mas vou lhe dizer algo que aprendi com minha mãe,qualquer conserva se abre tirando o ar do vidro,para isso usa-se a ponta de uma colher entre a boca do vidro e a tampa precionando para cima (como se fosse abrir com a colher) e o ar sai fazendo um barulhinho de ploc PRONTO é so girar a tampa sem nenhum esforço.Depois de tanto tempo,voce nos brinda com esta beleza de história real.PARABENS!!!

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 14/10/2014

Ótimo, maninho, Lindo mesmo. Só quem vê os olhinhos tristes de uma criança amada acaba tendo atitudes com a sua. Um dia ela pode até se decepcionar, mas vai achar graça de tudo isso. Legal mesmo. Outra coisa: deve ser muito bom ter vários filhos. Eu só tive um, mas somos felizes assim, como você. Um abraço, meu querido.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
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