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Categoria - Personagens Tema enredo para um desfile de carnaval, samba em aberto Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 09/12/2014
Veio da “cariocolândia” com todos seus “ésses e erres”, inicialmente mostrando a humildade de um aprendiz, mas com o tempo foi se abrindo, simpático, sorridente. “Demorei prá vir prá São Paulo, tinha medo de não ser bem recebido, sou carioca, morou na prosopopéia?”
 
Era o gurugugu do mulherio, amigão, bom de cavaco e violão, tocava um repinique nervoso e ainda fazia uma presença com o pandeiro, o “queijo com brincos”', nas batucadas da vida. Era gente fina, da melhor qualidade... 
 
Talvez tenha sido por isso, por toda essa alegria de viver, que o Carioca, era esse seu originalíssimo apelido em São Paulo, terminou com a boca cheia de formigas e com a caixa de catarro explodida. Inveja não é mole, precisam ficar velhacos, oh! juventude feliz e sadia, aprendei com essas sábias palavras que, em verdade, em verdade vos digo!
 
Desembarcara na Rodoviária do Tietê e se espantou com o tamanhão do prédio. No Rio os ônibus para São Paulo saiam, e ainda saem, de uma Rodoviária bem pequena, e antes ainda, de um antigo terminal aberto, exposto ao tempo, em frente ao prédio da Radio Nacional na Praça Mauá - o Edifício do antigo jornal "A Noite", zona portuária cheia de bordéis e cabarés, boca quentíssima, com os viajantes sendo submetidos a situações absolutamente vexatórias; o local tinha as duas privadas mais sujas do mundo, situação demoníaca que afastava turistas.
 
Em São Paulo estava sendo esperado por um amigo, o Bodinho, que o levou para seu barraco na Cachoeirinha e o apresentou ao pessoal do pedaço. Sendo aceito pela malta quase que de imediato com recepção regada à cerveja gelada, cachaça Tatuzinho, "deixa que eu pago ela", fatias de mortadela com limão, pimenta do reino e sal, samba de roda, samba de partido alto e uma batucadinha nas mesas do boteco frege-mosca. Negócio de meia noite, quase uma da madruga, cada um pro seu biongo, alguns abraçados, pés trocados, cantando:
 
"Já comeu, já bebeu
Sai da minha casa
pelo amor de Deus"
 
Carioca se sentiu em casa, passara pelos primeiros testes de noviciado, alí na batata! Tudo muito rápido, sem gueri-gueri, sem quelemescuê.
 
***
 
Domingo, dia de missa das 10, dos pastéis de feira e do futebol no campo de terra batida, último campo de futebol de várzea das redondezas. Dia de provocação entre as torcidas dos times do bairro; às vezes a coisa ficava feia com gente saindo na mão, pau fechando prá valer... 
 
Em torno do campo os vendedores de cerveja fria, caipirinha e aqueles infernais bolinhos de batata recheados com carnes mais do que misteriosas... e os espetinhos, ah! Os tais espetinhos de miau-miau! Havia também o duelo das batucadas, cada time trazendo sua bateria. No batuque o Carioca pontificava, era professor de samba e o fato de ser sambista acabou por lhe abrir algumas portas, que ele estava precisado, inclusive de emprego.
 
Acabou por ir trabalhar no depósito de ferro velho do bairro - ainda não era usado o termo “reciclagem”. O dono misto de garrafeiro e sócio de chalé do jogo de bicho, sem contar que era presidente fundador e dono do time do bairro, o Barreirinha FC. Mulato cabo-verde, cabelos lisos e ondulados, olhos verdes, felinos, chegou a namorar muito rapidamente a Ismênia, filha do presidente do Barreirinha e foi logo sendo tratado como futuro genro que, por sua vez, aproveitando a largura da boca, saiu do cafofo onde dormia e bandeou-se de mala e cuia para o sobradinho do sogro in pectore, deu moleza, sacumé!
 
Transformar a claque percussiva do futebol dos domingos na bateria de um bloco carnavalesco, com a anuência do sogrão, foi maria-mole, afinal o bairro precisava de um pouco de diversão popular. E o Carioca, experiente, assumiu a missão de botar o samba na rua. Mexe daqui, mexe dali, um ano após a fundação do bloco, e após muita insistência da Ismênia que queria ser Porta Bandeira, o bloco transformou-se no "Impávido Grêmio Recreativo e Escola de Samba Coroados da Barreirinha". Carioca cismou com o 'Impávido', mas o velho Mané Garrafeiro, seu sogro e financiador, gostava da palavra que ouviu no Hino Nacional e não teve jeito o Impávido ficou. Quase que fica Impávido Colosso, já viu um parangolê desse naipe?
 
Carioca levava jeito para a coisa e logo assumiu um cargo importante na Escola de Samba, e mais um cargo, e outro cargo e mais um outro... Era Carnavalesco, apresentador, “puxador de samba”, presidente da ala dos compositores, desenhava as alegorias, compunha, era Mestre Sala com a Ismênia como Porta Bandeira. Também comandava a bateria nos ensaios, cuidava da contabilidade, providenciava as documentações e alvarás, montou o bar na quadra, e, se fosse preciso, ia para o barracão e se metia a costurar fantasias e adereços. Era o homem dos mil instrumentos e isso estava começando a incomodar algumas pessoas, que não tinham os dons do Carioca e nem sua vontade de trabalhar para a Escola. 
 
Então começaram os cochichos: "O Carioca virou padroeiro do Brasil, tá muito aparecido" ou "ele tá pensando que aqui é o Rio de Janeiro", "só porque ele é genro do homem não tem que ficar mandando em tudo", "aposto que ele tá metendo a mão na grana da Escola..., já viu a caranga dele?", "o Mané Garrafeiro que fique esperto...", "eu nunca fui com a cara do Carioca", "ele tá precisando tomar um seca-lourenço numa quebrada, que é prá sangrar, prá ficar atento, prá fazer o melado descer”.
 
***
 
Goiabada sempre foi um homem muito estranho, e tinha um temperamento irascível. Era briguento, mal encarado e durante muito tempo foi o “bam bam bam” do bairro, o cara da última palavra. “Eu falei e tá falado, vai encará?"... 
 
Além do mais ele não simpatizava com o Carioca, o que não era um bom negócio, o cara era ruim, ruim, ruim, e então o perigo começou a se aproximar do sambista; os mais chegados procuraram alertá-lo ao pé d'ouvido:
 
- Malandro, fica ligeiro, guarda suas costas que tem gente querendo comer teu fígado e você sabe de quem tô falando!
 
- Goiabada? É só boquejo em falso, muito trovão, pouca chuva... não esquenta que eu tô ligado!
 
Os ensaios da Escola de Samba eram realizados na quadra dos Impávidos e para o ingresso era cobrado um preço simbólico, coisa de R$ 5. Naquela noite haveria uma festa homenageando o Sindicato dos Jornalistas e tinha gente de tudo quanto era jornal, revistas, rádio e TV, políticos e candidatos a políticos. Era época de eleições, portanto, onde houvesse uma câmara de TV, máquinas fotográficas e repórteres, já viu né? 
 
Além de homenagem ao Sindicato dos Jornalistas, as Escolas de Samba estavam apoiando a candidatura de uma professora negra à Assembleia Legislativa e essa senhora acabou sendo a figura central da festa, muito alegre.  Assessorada por um bando de “papagaios de pirata”, discursou, cantou, dançou fazendo par com o Carioca, portou o pavilhão da Escola, fez passos de Porta Bandeira...
 
Aquela seria a última noite do Carioca vivo, noite em que brilhou como nunca, estava iluminado...
 
Fim de festa, varrição da quadra, empilhamento das cadeiras e mesas, garrafas vazias nos engradados, o escritório iluminado com gente contando dinheiro, seguranças armados à porta.
 
Carioca sai para fumar um cigarro na entrada da quadra, conversa um pouco com o pipoqueiro que está se aprontando para cair no mundo de Deus e enquanto conversa não nota a aproximação do Goiabada:
 
- Vai morrer, desgraçado, nêgo forgado...! 
 
Um tiro só, calibre 45 carga dupla. Um flash de fogo ilumina a rua, Carioca vai para o chão em silêncio, sem um gemido, sangue borbotando de um buraco em seu peito, cheiro de fulminato de cordite no ar. O pipoqueiro, quase surdo pelo estampido está em choque, imóvel, as mãos tampando os ouvidos, não ouve a advertência de Goiabada:
 
- Babou as palavras, escorregou no asfalto que nem estácio, vai pegar fogo na Vila Alpina... Hoje 'tô livrando sua caveira, 'tás com sorte, só mato um por dia...
 
As luzes da fachada da quadra ainda estão acesas. O zelador pensou em apagá-las, mas um sargento da meganha não permitiu que fossem desligadas, "precisamos do lugar iluminado, vai ficar tudo como está, ninguém mexe em nada", disse.
 
Carioca estava caído de costas no tal decúbito dorsal, as pernas numa posição bastante estranha, branco, branco, o sangue foi drenado aos haustos através da cratera que o balázio escavara em seu peito. Tentou mover-se e sentiu-se paralisado, teve certeza que estava morrendo porque as batidas do seu coração acompanhavam a síncope da música que tinha apresentado no terreiro da Escola de Samba. A música não saía de sua cabeça, o refrão e os versos, seu último samba de enredo, as carótidas pulsando no ritmo do surdo, os pulsares, as batidas bem lentas, cada vez mais lentas, lentas, lentas, até que pararam de vez.
 
Morreu cantando para si mesmo.
 
Vermelhidão sanguínea, escuridão e só.
 
Ite vita est, requiescate in pacem, tu, Mestre Sala, que dançastes com Mlle La Mort.
 
Em seguida o silêncio eterno e o nada absoluto.
 
Alguém acendeu velas de 7 dias nos quatro cantos, sobre os paralelepípedos, e outro alguém colocou algumas moedas trabalhadas, cruzadas, ritualizadas, na mão crispada pela mímica da dor, na mão em garra do sambista morto e cuja alma ainda estava por ali, rondando ao redor do corpo que começava a esfriar. As moedas eram passaporte para Olorum ou fosse lá para onde fosse, que pelo menos a passagem estaria paga.
 
Magotes de perplexidades de gente do samba, sirenes de carros de polícia e de resgate. Giroflexes, holofotes, flashes de fotos que nunca irão sair nos jornais, repórteres da TV fazendo as mesmas perguntas para as mesmas pessoas que dão as mesmas respostas, e ainda riem no final da entrevista, como se estivessem falando a coisa mais engraçada do mundo ou se vissem na obrigação de rir, ao mesmo tempo em que mostram sua banguelice, oh! Lumpen. Crianças e adultos fazendo o possível para aparecer nas filmagens, digitam furiosamente os teclados dos celulares, "amanhã, liga no noticiário do canal 14 que eu estou aparecendo, vou acenar com a mão, tô com a camisa do Corinthians, vê se dá prá gravá"; o quarteirão, a vizinhança em estado de conturbação.
 
O cadáver vai ficar no lugar até a perícia e depois até a vinda do belichão do IML. Policiais fardados preservam a cena do crime, just like in “CSI Las Vegas, the movie”, did you see that?
 
Comentam que "demorou, malandro! Maior crocodilagem só porque é pobre e é preto, se fosse filho de argum deputado os cara já tinha arresolvido"...
 
Tá lá o corpo estendido no chão...
 
***
 
"Se eu precisar algum dia,
de ir pro batente,
Não sei o que será
Pois vivo da malandragem
E vida melhor não há..."
 
...alguém segue cantando um samba bem baixinho, sussurrando, até a estação do metrô.
 
Está amanhecendo.
 
O Goiabada foi preso meses depois do acontecido na casa de parentes numa cidadezinha do Piauí. Bons advogados permitiram que ele aguardasse o término do processo criminal em liberdade...
 
Goiabada morreu assassinado num botequim rampeiro em Carapicuíba; foi morto a facadas por um ajudante de balcão que tinha sido ameaçado por ele e seus comparsas, que exigiam que o bar permanecesse aberto quando já passava das 3 horas da madrugada. Goiabada passou para dentro do balcão e estapeou o funcionário que insistia em avisar que precisava baixar as portas. O rapaz se defendeu com um punhal de ponta bem fina e que penetrou uma, duas vezes em seu corpo quase que delicadamente. 
 
Goiabada correu para a rua tentando estancar o sangue que corria de seu abdômen e peito num spray cor de rosa, caiu e nunca mais levantou. Foi enterrado na Vila Formosa e algumas poucas pessoas acompanharam seu sepultamento. Precisaram pagar para que um batuqueiro tocasse luto no surdo de resposta! Goiabada morreu pelas mãos de um menino de 16 anos.
 
Morrer de morte matada é fácil, basta um olhar enviezado, uma discordância numa conversa, ou estar sapateado e com a moringa cheia da cachaça e falar o que não deve, ou morrer simplesmente por causa dos maus bofes do assassino que não foi com a sua cara, ou ser morto porque estava escrito, maktub! 
 
“Fazer o que, né?”, famosa frase que serve para encerrar bate-papo e era muito usada pelo Galé Boca de Ferro, que Deus o tenha, o maior devorador de feijoadas de São Paulo - começava com três cumbucas e depois, quando a situação ficava “cínica”, precisava ser levado “prás Crínica”...
 
Fazer o que, né não?
 
Toda essa história até que daria um enredo para um desfile de carnaval. Há que se pensar nessa idéia!  Queres parceria no samba de enredo? Precisas contribuir com 20 contos prá inscrição...
E-mail: joaquim.ignacio@bol.com.br
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Publicado em 19/12/2014

Li este texto no FB e exaltei-o por l´, Vim para este site depois e me deparo novamente com esta obra prima, não me furtei de reler.

Termino a leitura e saio com a alma ensaboada, lavada e perfuma (como diria um certo prefeito da TV).

Este , realmente o Ignacio eu conheço.

Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 14/12/2014

"JÁ COMEU , JÁ BEBEU, SAI DA MINHA CASA, PELO AMOR DE DEUS" vou cantar várias vezes esse refrão, realmente incrível. Que história viva, vibrante, maravilhosa, claro que a dor , os crimes não tem nada de maravilhoso, mas o personagem tão ímpar, tão protagonista, uma linguagem tão frisante, um cenário tão bem explorado, realmente sua história é um obra-prima, uma narrativa espetacular e om muitos detalhes, verdadeira relíquia e seu retrato cotidiano, uma obra típica do ROMANTISMO brasileiro, ou do MODERNISMO, caberia ainda na transição de ROMANTISMO para REALISMO, beirando ali o NATURALISMO, enfim é uma obra digna da literatura brasileira, parabéns!

Enviado por Wander Luiz dos Santos - wandersantos23@gmail.com
Publicado em 13/12/2014

Ignacio, ufa... opalelê. Agora só falta meter um partido alto e sair pelai sambando.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 12/12/2014

Joaquim, muito, mas muito bem escrita mesmo a sua crônica. Concordo com o Nelinho - poderia ser enredo de escola de samba. Adorei. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 10/12/2014

Joaquim, realmente sua história poderia ser convertida em enredo de escola de samba, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 10/12/2014

UFA!!! que trabalho para tentar entender qual o significado de tudo isso!!! Parece que tudo que acontecia virava enredo de escola de samba,rimava-se o acontecido com o surreal Tudo muito tétrico,parece um filme dos horrores...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 10/12/2014

Uma estória contada com contagiantes recursos de pura malandragem, metáforas na linguagem muito bem aproveitadas. Um trabalho de carpintaria nas apresentações dos personagens sem desequilibrar o roteiro, ornamentado de músicas recordadas, respeitando sempre os fatos reais da narrativa. Parabéns, Joaquim, um texto de peso, bem explícito.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 09/12/2014

Amigos, os velhos sambistas já perceberam que há pouquíssima ficção no texto; os fatos relatados aconteceram. Algumas situações foram criadas, outras edulcoradas, nomes foram trocados (mesmo porque é tradição nas Escolas de Samba não nominar os dois personagens - ordem do Babalorixá João Babá!). No dia dos acontecido, festa em homenagem ao Sindicato dos Jornalistas e lançamento da candidatura de uma personalidade negra, eu estava na quadra, eu e meu grande amigo Brandão, já finado. Verdade verdadeira!

Enviado por Joaquim Ignácio de Souza Netto - joaquim.ignacio@bol.com.br
Publicado em 09/12/2014

Joaquim, uma cronica que prende o leitor até a ultima linha, bem escrita com enredo para um bom samba, assim como um assunto para o programa do Datena e ou uma musica para Gilberto Gil, parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
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