Leia as Histórias

Categoria - Outras histórias Gafieira na Casa Verde Autor(a): João Marquezin - Conheça esse autor
História publicada em 30/12/2014
Morei na Casa Verde, mais precisamente na Rua Inhaúma, hoje Rua Dr. Cezar Castiglioni Jr., entre os anos de 1945 e 1949. Portanto, durante quatro anos. Antes de 1945, morava na Vila Espanhola, hoje mais conhecida com Casa Verde Alta.
 
Posso afirmar que foram os anos mais deliciosos para mim. Garoto, ainda dos dez aos quatorze anos, tudo era novidade. Como contei em relato anterior, eu naquela época uma criança que ainda não tinha visto nada que me empolgasse, ou que me fizesse ter uma curiosidade maior... 
 
Antes de mudarmos para Rua Inhaúma, era eu um verdadeiro "bicho do mato". 
 
***
 
Os fundos da nossa casa, cujo quintal tinha mais que 50 metros, ia findar na barranca do rio que hoje separa as duas pistas da Av. Eng. Caetano Alvares. Este mesmo rio, hoje tão poluído, era na época muito limpo e muito bonito. Lembro-me de que os adultos nele mergulhavam e pegavam com as mãos cascudos, bagres e até acaras. E nós crianças, com nossas varinhas de bambus com anzóis pequenos pescávamos lambaris, que mamãe fritava com muito carinho. Esses peixinhos em muitas ocasiões eram as misturas para nossas refeições. 
 
Hoje este local é de intensa movimentação de veículos com constantes engarrafamentos. Que diferença daqueles bucólicos tempos...
 
Porém, na Rua Inhaúma tudo era diferente. Muitos carros, bondes, ônibus, lojas de sapatos, de roupas e até banca de jornais.
 
 
Foi numa dessas bancas que comprei meu primeiro livro de leitura, que custou seis cruzeiros. Chamava-se "Série Pátria Brasileira" e o escritor era o Sr. Renato Seneca Fleuri. Posso afirmar: o possuo até hoje. Ele foi comprado em 1946. Com muito orgulho, o dinheiro para comprá-lo foi conseguido trabalhando como engraxate, ali mesmo nas calçadas da Rua Inhaúma.
 
Trabalhava todos os dias, inclusive sábados e domingos, com permissão de mamãe, que me liberava sempre alguns centavos do meu trabalho. Fui juntando centavo por centavo até formar a quantia de seis cruzeiros - isto engraxando sapatos após as aulas do primário que eram de manhã. Cerca de quatro meses depois na banca de jornal do Sr. Modesto, tinha eu em mãos o livro tão desejado: simples, um pequeno livro, singelo, mas para mim um verdadeiro tesouro!
 
Como disse antes, tenho-o até hoje bem guardadinho. Deste livro extrai um poema que fala do descobrimento da cidade do Rio de Janeiro, que na época era chamada pelos índios de Pindorama. 
 
***
 
Pois bem, a Rua Inhaúma, todos os sábados, se transformava em festa, pois ali no seu ponto central (que hoje é conhecido como a Rua dos bancos), tinha um clube de danças de nome "Democráticos”. Muito embora tivesse ele sido fundado ainda nos tempos da ditadura de Getulio Vargas, era esse seu nome. Todo bendito sábado, ao cair da noite, este clube virava uma autêntica "gafieira" e era bonito de se ver. 
 
Todos os frequentadores, com raríssimas exceções, eram negros. Homens e mulheres muito alinhados e elegantes. Os homens com seus ternos de linho branco, chapéus pretos ou brancos, sapatos pretos muito bem engraxados. As mulheres também muito bem produzidas, com seus vestidos longos, sapatinhos de acordo com a situação, com suas bolsas e mãos bem feitas.
 
Enfim, todos muito bem arrumadinhos e perfumados. Uma beleza, sorrisos pelo reencontro, damas e cavalheiros se harmonizando. Até lá pelas 23h ainda chegavam pessoas nos bondes e ônibus, todos eles lotados, e a Rua Inhaúma toda em festa. 
 
Começando o baile, começava também um desfile de lindas canções, sambas canções, sambas, rumbas, boleros, nas vozes de Orlando Silva, Silvio Caldas, Ciro Monteiro, Nelson Gonçalves, Moreira da Silva, Dalva de Oliveira, Linda Dircinha Batista, Isaurinha Garcia, entre outros. Tudo o que de melhor existia na época e que para mim ainda é melhor até hoje. 
 
E assim ia noite a dentro, o baile do Democrático, até às seis, sete horas do domingo. Quando eu ia, a mando de mamãe, comprar o leite e o pão, a padaria estava totalmente lotada pelos dançarinos, que ali também faziam sua primeira refeição ou arrematavam a noitada com cervejas, cachaças ou algo mais.
 
Sabiam todos que somente dali uma semana iriam se reunir novamente para nova gafieira de gala. Até lá iriam voltar a sua realidade da vida, ou seja, trabalho durante os seis dias da semana e sonhando com novo sábado de alegria!
 
 
E-mail: joaomarquezin@yahoo.com.br
Localização da história
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 07/01/2015

comecei a freguentar a boemia em são Paulo, em 1959,tinha 19 anos.

parei de freguentar em 1985.

fui um dos maiores boêmio de são Paulo

fui amigo, do cantores, gregorio barrios, hugo del carril.vic damone,

erta kit.nelson golçaves, germano batista etc,,

freguentei avenida danças, atlântico,dakar la vien rose, holliday,la liconne.club holms, Piratininga,casa de Portugal, marajo,etc,,

LINDOS TEMPOS, FUI UM HOMEM MUITO FELIZ.OBRIGAD SENHOR.

Enviado por João Cláudio Capasso - jccapasso2@hotmail.com
Publicado em 06/01/2015

Crônica de largos relatos sobre as noites de antigamente, quando se dançava o que de melhor se ouvia de músicas populares. Dá uma saudade imensa quando se lê textos desse quilate. Muito bem elaborado, João e não foi atoa que a Casa está Verde até hoje. Parabéns, Marquezin.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 06/01/2015

Meu primeiro livro...meu primeiro emprego...meu primeiro namorado...lembro direitinho disto tudo como se fosse um conto de fadas Hoje tudo é tão rápido que ninguém consegue lembrar de mais nada...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 03/01/2015

Jorge, bons tempos das gafieiras damas bem vestidas, rosto colado, hoje não existe mais, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
« Anterior 1 Próxima »