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Categoria - Outras histórias Carambolou: Pagão de Primeira! Autor(a): Claudio Bertoni - Conheça esse autor
História publicada em 23/01/2015
Anos 60, no quintal de quase todas as casas, a molecada se juntava pra jogar Box, no chão de terra. Preparava-se o terreno com uma boa varrida.
 
Com bolinhas de gude, quatro caçapinhas escavadas com tampinha de refrigerante, três em linha e a 4ª a 90° da 3ª formando um L e distantes um metro a cada box.
 
Para iniciar, todos jogavam suas bolas de longe pra ver quem aproximava mais da 1ª casa. As bolas lançadas, de todas as cores e tipos, iam se juntando como formiga faz no açúcar. O número de participantes era ilimitado e contava desde frangotes até os marmanjões. 
 
Embocando na caçapa, já tinha o direito de ir estecando a bolinha dos rivais para longe. Havia uma regra que permitia medir um palmo para se ajeitar uma boa estecada. E era aí que começava a festa... 
 
Eram vários os pedidos de defesa, ao ver sua bolinha sendo atacada: 
 
- Carambolou, pagão de primeira! 
 
Ou ainda: 
 
- Carambolou morre na 1ª mão da matança e a vez!
 
A bolinha não poderia bater em outra, sob pena do atacante ser o primeiro perseguido na hora da matança. Perderia a vez, e muito pior, ainda morreria pagão! 
 
A hora da matança começava quando se fazia a 4ª casa. Os matadores não precisavam mais fazer o palmo e esse era o sinal do perigo. Era um desespero para os retardatários, cada um tentando acertar a casinha da vez, pois quem errava logo era acertado e se oôsse atingido pelo matador perdia sua bolinha. 
 
Alguns já chegavam na roda trazendo um saco de bolinhas ganhas, pra pressionar. Era um jogo todo falado e cheio de alegria, com pedidos engraçados como: 
 
- 3 Para! 
 
Assim, podíamos colocar o pé a 3 passos da estecada, defendendo para que nossa bola não sumisse do mapa... 
 
Os "pedidos" eram variados, valia pra quem gritava primeiro: 
 
- 3 para morre na primeira mão da matança! - alertava um mais esperto. 
 
- Limpinha! - pra limpar o terreno antes da jogada. 
 
- Altinha! - apelo de clemência, na hora do mata-mata, se as bolinhas estivessem muito próximas. Era um recurso de defesa, obrigando lançar a bolinha do alto, fazendo o palmo pra cima ou obrigando o atacante ficar em pé. 
 
- Carambolou perde a vez! 
 
Ou ainda, havia também o famoso: 
 
- Arreou pagão de primeira! – ou - Arreou perde a vez!
 
Na hora da estecada, a bolinha atingida não poderia parar antes de 3 palmos de distancia, senão arreava! 
 
“Pagão de primeira” significava que o jogador tinha que começar tudo de novo lá do primeiro box pra frente. Ah meus amigos! E se gente não conseguia fazer a primeira casa, morria pagão, era uma gozação dos infernos, que durava por um bom tempo na rua Jesuino Arruda, na rua Tabapuã, ou na Pedroso Alvarenga. 
 
No tempo que não havia muito prédio e o Itaim Bibi era somente de casas, na maioria famílias de portugueses, italianos e espanhóis, com muito pé de caquí, jabuticaba, ameixa, goiaba. E cachorro, passarinho, balão, futebol de rua, carrinho de rolimã, bicicleta sem paralama, pião, pipa e bastante bolinha de gude!
E-mail: bertoniclaudio@yahoo.com.br
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Publicado em 31/01/2015

Cláudio, é uma pena, hoje não temos mais ruas sem calçamento para que as crianças possam cavar os seus "box" e jogar bolinhas de gude como no meu e no seu tempo, o divertimento agora é eletrônico, parabéns pelo seu texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 29/01/2015

Isso mesmo, bolinhas de aço eram terríveis! Havia ainda mais expressões curiosas, do tipo: Alto peito sem mira!(na hora do mata-mata, tinha que ficar em pé pra lançar da altura do peito sem olhar pra baixo). Lembrei tambem do "inferno" que era um buraco maior que fazíamos afastado das caçapas (quem caía lá perdia a vez). Embocar na casinha da vez dava o poder de prosseguir jogando, de estecar pra longe os adversários que ainda não tinham feito a terceira casa. Tudo muito criativo! Recordam do "Nadinha"! ou "Não dou nada"! (Quem gritava isso primeiro, após a embocada, podia mandar a bola do outro bem distante sem permitir paradinha ou qualquer outro tipo de defesa)... Um verdadeiro show de idéias engraçadas que variavam conforme a região... Valeu amigos: Estanislau, Modesto, Julia, Walquiria, Aureliano ... Vamos assim, resgatando detalhes !

Enviado por Claudio Bertoni - bertoniclaudio@yahoo.com.br
Publicado em 27/01/2015

Claudio, lembrei-me que alguns meninos vinham com umas bolinhas de aço, que eram extraidas dos rolamentos, dos carrinhos de rolimã, muitas vezes elas quebravam as bolinhas de vidro. O Modesto também lembrou bem sobre os triangulos de bolinhas, e que eu também não lembrava, pensei que eu tinha boa memória, parabéns a ambos,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 26/01/2015

A distribuição das caçapinhas, eram as mesmas, as quatro formavam um "L" e o jogo nós chamávamos de "bolinha 'a box", as orientações, um pouquinho diferente. Tinha, também o "triângulo", com as bolinhas posicionadas dentro de um triângulo e quem atirava com mais força, (na maneira tradicional, usando o polegar e o indicador pra arremessar) e havia mais variações sobre as famosas bolinhas de vidro. Narrativa bem interessante e muito bem explícita. Parabéns, Bertoni.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 24/01/2015

Bela infância, Bertoni. Fico triste em ver que nossos netinhos nem se interessam por essas brincadeiras mas faço de tudo para introduzir algumas delas na vida de meu neto de 5 anos. Mas para não ficar fora da "tribo" dele, ele também sabe usar e manusear eletrônicos melhor que a avó e o avô.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 24/01/2015

Claudio eu acrescentaria " infância feliz " ou seja Anos Dourados - Abraços ...

Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
Publicado em 23/01/2015

Claudio,voltei no tempo e quem na nossa idade não jogou e brincou o que voce relacionou, mas voce me fez lembrar de algusn termos e regras que já havia esquecido, só faltou voce dizer que quando alguem estava ganhando muitas bolinhas, combinava com alguem para dizer quer a mamãe estava chamando e ia embora como o saco cheio de bolinhas, parabéns, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 23/01/2015

Só entendi sua narrativa porque meus irmãos brincavam na rua de jogar bolinhas e era um alvoroço tremendo as vezes até parecia que estavam brigando.Graças a Deus nas ruas não passavam quase carros,e os poucos que passavam diminuíam e desviavam da molecada...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
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