:: Cenas de um Casamento ::Categoria: Outras histórias Autor(a): Bernadete P. Souza | história publicada em 08/09/2008
Casar na Penha, pela tradição e beleza da igreja, era o sonho de todas as moças que lá moravam - inclusive das de outros bairros. Para marcar um casamento, tinha que ser com muita antecedência e pagava-se um preço alto por isso; dependia muito da escolha dos adereços. Ex.: tapete vermelho, quantidade de flores, iluminação, etc.
Era comum retirarem o tapete, os arranjos e diminuírem as luzes entre um casamento e outro. Tudo dependia do preço pago. Eram casamentos em série. Começavam às 18h00, iam até às 20h00 e tinham a duração de quinze minutos cada. Havia também uma senhora encarregada de fiscalizar os decotes dos vestidos das noivas. Se ela achasse saliente, colocava uma capinha branca sobre o vestido, o que tirava todo o charme do modelito. Assistir casamentos na igreja era um programa para os sábados. As pessoas iam até lá para reparar e criticar. Por conta de tudo isso, resolvi casar na Capela de Nossa Senhora de Fátima, que, apesar de não ter a beleza da igreja matriz, foi enfeitada, iluminada, só para meu casamento, com direito a um belo coral, que sempre se apresentava nas missas de domingo. Emmanuel, irmão do meu marido, fazia parte desse coral. O ENXOVAL As meninas começavam bem cedo a fazer o enxoval. Para arrumarmos um bom marido, tínhamos que aprender a bordar, costurar, etc. Eu nunca tive muita habilidade com linhas e agulhas, e meus trabalhinhos manuais eram horrorosos. Tudo que fazíamos era guardado num baú e ficava à espera de um pretendente. Eu sempre perguntava para minha mãe: “E se não aparecer ninguém para casar comigo? E se aparecer e ele não gostar dos meus bordados???”. Ainda bem que o Eliseu (meu marido) interessou-se mais pelo meu jeito de pular corda, brincar de amarelinha e do meu desempenho no teatrinho de rua. Foi assim que o conheci. Ele tinha 19 anos e eu apenas 12. Quando fiz 15 anos, ele foi pedir minha mão ao Sr. Pedroso. A MORADIA Normalmente, os noivos alugavam um quartinho em um cortiço, ou moravam junto com os pais, num cômodo e cozinha construído nos fundos da casa. Eu e Eliseu alugamos um sobradinho numa vila. O aluguel consumia todo meu salário de escrituária. A CERIMÔNIA A noiva roubava todas as cenas. Ninguém queria saber se o terno do noivo era emprestado, surrado ou comprado nas Lojas Garbo ou Ducal. Todos queriam ver a noiva com seu belo vestido, escolhido com muito carinho, meses antes do casamento. O meu era simples, mas muito bonito. Foi feito e bordado pela Dona Olga, sogra de minha irmã mais velha. A FESTA Normalmente, os convites eram com o tradicional "os noivos despedem-se na igreja". Mas quem agüentava as críticas dos parentes? “Que pão duro! Não vão oferecer nem um bolinho??”. No meu casamento teve uma festa, com os quitutes preparados pela minha mãe, Dona Linda. Eram as tradicionais coxinhas, rissoles, sem esquecer dos palitinhos com picles, azeitonas e salsichas espetadas no repolho. O tradicional bolo era encomendado de uma doceira, que caprichava no recheio e na decoração. O chopp e refrigerantes eram servidos no quintal, o lugar com maior concentração masculina. LUA-DE-MEL Normalmente, os noivos iam para Santos (Praia-Grande) numa furada, como o Modesto relatou. Quem tivesse mais posses, ia para Poços de Caldas. Eu e Eliseu tivemos sorte, pois ganhamos de presente do Zalli, ex-jogador do Juventus, que era meu vizinho, uma semana no seu apartamento de quarto e sala em São Vicente. Vilma, mulher do Zalli, enfeitou o apartamento com muitas flores e frutas. Estava muito bonito, mas eu, aos 19 anos, nunca tinha visto o mar, e tudo que desejava naquele momento era vê-lo. O Eliseu, no entanto, tinha outros desejos, e tentava me tirar da pequena varanda que ficava na lateral do apartamento. “Vem, meu bem, vem deitar”, dizia ele, “Amanhã você vê o mar”. Mas eu não queria saber de nada, só queria ver o mar. Infelizmente, não consegui realizar meu desejo nessa noite, acho que o Eliseu também não ficou muito satisfeito. Só no dia seguinte, depois de curtir a praia e o mar, é que a lua-de-mel começou de verdade. A VOLTA Quando os noivos voltavam, tinham que abrir todos os presentes que eram deixados em cima da cama do casal. Comigo não foi diferente. O pior foi no dia seguinte, constatar que tínhamos ganhado oito ferros elétricos, doze aparelhos de café, oito jogos de caipirinha, muitos vasos e fruteiras, mas não ganhamos nenhum prato, nenhum talher e nenhuma panela. Tivemos que pedir emprestado para minha mãe. A CONVIVÊNCIA Conviver depois de casado é difícil. As dificuldades financeiras, as rusgas, etc., atrapalham. Mas a alegria da chegada dos filhos supera tudo. Eu e Eliseu tivemos duas filhas, Elisabete e Adriana, que nos deram cinco netos maravilhosos. Fizemos, em junho, 43 anos de casados, de uma feliz união. “E o mar, quando bate na praia é bonito, é bonito." e-mail do autor: bernadete.pedroso@norwan.com.br |
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:: COMENTÁRIOS :: Oi, Bernadete, estou curtindo muito suas histórias...Descobri esse site nesse fim de semana e estou adorando! Já li muitos comentários, já escrevi vários, também. Vivi metade da minha vida na Penha, na Rua Sete Lagoas (em frente ao Ateneu). Casei-me em 81 na Igreja Nossa Srª de Fátima. No meu caso, as coisas foram um pouquinho diferentes: o meu noivo foi comigo em uma das lojas de vestidos de noiva na Rua Padre João me ajudar a escolher o meu vestido. Escolhemos um simples, mas bem bonito! E, contrariando as superstições, não nos trouxe azar! Pelo contrário, agora em 10 de outubro faremos nossas Bodas de Pérola! Temos um casal de filhos lindos e moramos em Ribeirão Preto e somos muito felizes! O padre, que era chileno, fazia o maior terrorismo com os noivos e dizia que para cada minuto de atraso reduziria 5 da cerimônia! Afff!!! Mas deu tudo certo, apesar da pessoa encarregada da música errar e se complicar toda durante a cerimônia inteira... Adoro o bairro da Penha, tenho muitos parentes que ainda lá residem. Parbéns pelo seu estilo e pela sua sensibilidade! Abraço Célia Oi, Bernadete, estou curtindo muito suas histórias...Descobri esse site nesse fim de semana e estou adorando! Já li muitos comentários, já escrevi vários, também. Vivi metade da minha vida na Penha, na Rua Sete Lagoas (em frente ao Ateneu). Casei-me em 81 na Igreja Nossa Srª de Fátima. No meu caso, as coisas foram um pouquinho diferentes: o meu noivo foi comigo em uma das lojas de vestidos de noiva na Rua Padre João me ajudar a escolher o meu vestido. Escolhemos um simples, mas bem bonito! E, contrariando as superstições, não nos trouxe azar! Pelo contrário, agora em 10 de outubro faremos nossas Bodas de Pérola! Temos um casal de filhos lindos e moramos em Ribeirão Preto e somos muito felizes! O padre, que era chileno, fazia o maior terrorismo com os noivos e dizia que para cada minuto de atraso reduziria 5 da cerimônia! Afff!!! Mas deu tudo certo, apesar da pessoa encarregada da música errar e se complicar toda durante a cerimônia inteira... Adoro o bairro da Penha, tenho muitos parentes que ainda lá residem. Parbéns pelo seu estilo e pela sua sensibilidade! Abraço Célia [ Enviado em 01/09/2011 por Regina Célia de Carvalho Simonato - rccsimonato@hotmail.com ] Claudio, mandei um email para você. Gostaria de manter um contato para saber como estão todos. Tenho lembranças muito agradáveis alí da Angelo Zanchi. Um abraço [ Enviado em 03/11/2009 por Bernadete P Souza - bernadete.pedroso@gmail.com ] MUITO LEGAL ESTE RELATO DOS TEMPOS PASSADOS, NOSSA PENHA NÃO MUDOU MUITO, CONTINUA SENDO UM BAIRRO DE MUITOS AMIGOS E BOAS RECORDAÇÕES, FIQUEI MUITO FELIZ EM LER O TÓPICO DE SUA LUA DE MEL COM O ELISEU NO APARTAMENTO DE MEU PAI. ABRAÇOS CLAUDIO ZALLI [ Enviado em 24/09/2009 por CLAUDIO ZALLI - c.zalli@terra.com.br ] Tia como o tempo muda as coisas, né! Hoje casar assim dessa menaeira é raridade e qd acontece muitas vezes algum tempo depois já ocorre a separação! Você e o Tio Eliseu, como meu pai e minha mãe são exemplos de casamentos, espero tb fazer 43 anos de casada! E realmente o mar é lindo demais!mil bjs [ Enviado em 10/09/2008 por Mariana Peramezza - peramezza@gmail.com ] Bernadete,é dígna de um filme a história do seu casamento,como disse o clesiodeluca será ótimo repetir este casório. Quero estar presente e conhecer o Eliseu,parabens. [ Enviado em 10/09/2008 por Julio Cesar Rabello - jcoshariff@gmail.com ] Bernadete seu texto é assimétrico. Sem alguns componentes. É a tal boda. o ramalhete quem pegou? A que horas sairam para São Vicente? Quantas testemunhas? data do casorio; quantos convidados? Assim ficastes nos devendo.(brincadeirinha viu); Sugestão: porque não refazer a festa convidando os novos amigos? [ Enviado em 09/09/2008 por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br ] Bernadete, tudo muito lindo e bem explicadinho, so faltou você contar da corda que as noivas amarram no pescoço do noivo para "enforca-o0" rsrsrsrs [ Enviado em 09/09/2008 por miguel - misagaxa@terra.com.br ] Bernardete. Uma coisa que você não relatou. E a camisola do dia, comprou na 25, ou na feira? O Zalli jogou saiu do Juventus,e foi jogar no Palestra. Ainda bem, se ele joga-se no Corintians, voce tinha que alugar uma espelunca que nem o Modesto. [ Enviado em 08/09/2008 por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br ] Realmente, como disse Berê, a gente não sabe se ri ou se chora lendo seu texto. É um mixto de poesia, com lembrança, experiência e muita sapiência. Vontade de rir com a menina perguntando à mãe se alguém vai querer casar com ela, se gostar dos bordados? Impagável. Depois, a lua de mel. Pobre Eliseu. Sabe que eu vi o mar pela primeira vez, quando tinha 17 anos. Você ganhou de mim. Realmente que falta faz bordar para uma pessoa maravilhosa como você, cheia de sorrisos e brilho no seu amor pela vida? Feliz do Eliseu, de suas filhas, netos, irmãos e amigos. Parabéns, minha prima iluminada e querida. Também ri sobre a decoração ajusatada de acordo com o pagamento. Tira flor, tira luz, põe flor....rs um grande abraço. Vera [ Enviado em 08/09/2008 por Vera Lúcia de Angelis - deangelisgomes@terra.com.br ] Alô Bernadete, quase que a história do seu casamento é igual a minha, eu e minha esposa Jurema nos casamos em 1.960, o vestido de noiva também era simples porém muito bonito, foi confeccionado pela minha cunhada Helena, uma excelente costureira naquela época, as fotos foram feitas no estúdio do Foto Landa lá na esquina da Rua Silva Bueno com Lord Cockrane, a cerimônia foi realizada na Igreja São José do Ipiranga, o casamento no civil foi feito no Cartório do Ipiranga dois dias antes do religioso, mesmo depois de casados oficialmente no cartório a minha falecida sogra não permitiu que ficássemos a sós nem por um minuto! hoje as namoradas dormem na casa do namorado e a gente acha normal, como vê os tempos mudaram muito, parabéns pelo teu relato e que Deus abençõe esta união e que ela permaneça para todo o sempre, abraços extensivos ao teu marido Eliseu, Leonello Tesser (Nelinho). [ Enviado em 08/09/2008 por Leonello Tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com ] Bernardete, você me fez lembrar: "Verdes mares bravios de minha terra natal onde canta a jandaia nas frondes da carnau- ba, verdes mares que brilhais como líquidas esmeraldas... )josé de alencar. Porque ninguem resiste ao chegar ao Ceará; a primeira coisa que quer ver são os verdes mares... E o Eliseu ficou a ver navios...? Um abraço à ambos e parabéns. Asciudeme [ Enviado em 08/09/2008 por asciudeme Joubert - asciudeme@ig.com.br ] Vc descreveu muito bem todo o cenario matrimonial, com seus sonhos e realidades que o acompanham. Parabens!! [ Enviado em 08/09/2008 por Etel - ebussbuss@gmail.com ] Querida amiga, no dia que ouvi essa história eu morri de rir! Cheguei até a chorar.... Hoje, lendo o que você escreveu, me emocionei. Linda história, belíssimas recordações, muito amor.... Felicidades a você a ao Eliseu (não conheço pessoalmente, mas já é meu amigo). Grande abraço [ Enviado em 08/09/2008 por Doris Day - dorisdaybrasil@gmail.com ] Realmente, Bernardete, v. teve sorte em ter o Zalli (ótimo jogador...) como amigo. Se fosse parente... estarias passando a lua de mel nas areias da Praia Grande, em junho, o que é pior... Linda descrição, Benê, que estes 43 anos se transformem em, no mínimo, 80 anos, tá bom? Abs. Laruccia [ Enviado em 08/09/2008 por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br ] MInhas 3 tres irmãs, todas casaram na Igreja da Penha, mas na tradicional a (antiga) perto do colégio das freiras, meu pai tinha chacara de flores na Penha, e todos os sabados havia encomenda para decorar a igreja, quem sempre estava no comando éra a Rosa (filha da Dolorata),mas já falecida. a Igreja da Penha tem um acabamento interno (decorativo) inigualavel, hoje um arquiteto não consegueria executar aqueles acabamentos,parabéns,os carros desses casamentos tinham uma faixa Branca em suas rodas, eu muitas vezes lavei essas faixas com sabão de coco para dar brilho. [ Enviado em 08/09/2008 por RUBENS ROSA - RROSA49@YAHOO.COM.BR ] Maninha, que lindo recordar aquele dia em que fazemos de tudo para ser o mais feliz de nossas vidas. Vc n esqueceu de nada, era tudo assim mesmo.Lembro de vc no dia do seu casamento, estava simplesmente linda com seu vestido de noiva e rostinho encantador de menina, o Eliseu soube escolher muito bem o seu par. Me emocionei ao ler seu texto e lembrei muito da nossa casa lá na Penha, do papai, da mamãe e de todos nossos irmãos. Parabéns Bernadete, merece tudo que a vida lhe tem proporcionado. Um enorme beijo. [ Enviado em 08/09/2008 por margarida p peramezza - peramezza@ajato.com.br ] |