:: Olha o Arnesto aí ::Categoria: Personagens Autor(a): Pedro Nastri | história publicada em 10/10/2008
“O Arnesto nos convidô prum samba / Ele mora no Brás".
É o que diz a letra de um dos sambas mais famosos de Adoniran Barbosa. Mas não é verdade. O Arnesto - na verdade, Ernesto, Ernesto Paulella -, perto de completar 92, perfeitamente lúcido, ainda se lembra muito bem dessa história, que ele mesmo vai contar mais adiante. É verdade que nasceu no Brás, na Rua Flora, onde os pais - imigrantes italianos da região de Nápoles - haviam se instalado desde que desembarcaram no Brasil em 1896. Com seis anos, Ernesto corria as ruas do bairro vendendo chuchu, para ajudar o pai, sapateiro de ofício. Aos onze, arrumou seu primeiro emprego num armazém de secos e molhados na Rua João Antônio de Oliveira, ganhando 14 mil réis por mês. Esperto, honesto e inteligente, conseguia cativar os patrões, e assim trocou várias vezes de emprego, sempre ganhando um pouco mais. E sempre trabalhando como atendente e balconista. Tinha pouco mais de vinte anos e trabalhava na Casa Planeta, uma loja de miudezas na região do Mercado, quando recebeu um convite para trabalhar na Fábrica de Ceras Record e assistiu a uma das cenas mais insólitas da sua vida: os dois patrões se engalfinhando, na disputa pelo "passe" do empregado. Mais forte, e até porque tinha também um revólver na mão, Salvadore Basile (o dono da fábrica de ceras) acabou levando a melhor. E, mesmo constrangido, Ernesto foi trabalhar com ele, ganhando o dobro do salário e com direito à participação nos lucros. Dali só sairia 36 anos depois, quando já ocupava o cargo de sócio-diretor. A necessidade de trabalhar não deixou muito tempo para os estudos. Mesmo assim, não deixou de freqüentar as aulas no Colégio Oswaldo Cruz, na Rua da Mooca, e, aos 64 anos, já aposentado, formou-se em Direito. E ainda iria advogar por mais trinta anos. Como tudo começou Ernesto tinha dezesseis anos e trabalhava numa papelaria no Brás quando comprou seu primeiro violão, para fazer serenatas com o pai que, além das habilidades no ofício de sapateiro, exibia também qualidades como tenor. Algum tempo depois, juntou-se a alguns colegas de serviço para formar o conjunto "Chorinho da Madrugada". Começaram a tocar no programa de Nhá Zefa, na Rádio Bandeirantes, que tinha seu estúdio na Rua São Bento. Um dia foram dar uma "canja" na Rádio Record, na Rua Conselheiro Crispiniano. E é ali que a história vai começar, pois Adoniran Barbosa estava na porta. Nhá Zefa fez as apresentações, Adoniran pediu um cartão, olhou e murmurou: - Ernesto Paulella. Não seria melhor Arnesto? Ernesto não entendeu. Adoniran emendou: - É, Arnesto é melhor. Até porque Arnesto dá samba. Ernesto continuou sem entender. Mas, antes de se despedirem, Adoniran ainda lhe disse: - Vou fazer um samba com o seu nome, você duvida? A empatia surgida naquele momento se transformaria em grande amizade, alimentada por longos papos na Leiteria Pereira, na esquina da Rua São Bento com a Praça Patriarca, onde Ernesto tomava água Prata e Adoniran variava entre o conhaque e o Martini. E de onde os dois partiam para tocar nos bancos da Praça da Sé. Era início dos anos 40 e, a partir daí, os dois tomariam rumos diferentes, para só voltarem a se cruzar mais de quinze anos depois. Ernesto casou-se, em 1941, com Alice, com quem teve seis filhos, um dos quais (uma menina) morreu tragicamente ao escapar das mãos do médico na hora do parto. Nesse período, depois de passar pela Rua Madre de Deus e pela Rua do Hipódromo e já morando num sobrado da Rua Tagi, próximo da Rua dos Trilhos, viu a Mooca se transformar. A começar pela praça existente ao lado da sua casa (hoje Praça Kennedy), na época, reduto inexpugnável do 5 de outubro, um dos times mais valentes da várzea da Mooca. E também pela própria Rua dos Trilhos, onde existia apenas um córrego e onde, na época de menino, seus colegas costumavam caçar passarinhos. Depois veio a Radial Leste, construída sobre a antiga Rua Conselheiro Justino e que roubou cinco metros do seu quintal. E estava exatamente ali, no quintal, num dia de 1955, quando ouviu pela primeira vez pelo rádio o "Samba do Arnesto", cantado pelos Demônios da Garoa. Chamou a mulher: - Alice, essa peteca é minha! - Que história de peteca é essa, Ernesto? - É o samba que o Adoniran disse que iria fazer para mim. Comovidos, os dois se abraçaram. "Não deu para não chorar", lembra ele hoje, novamente com os olhos úmidos. Mas ainda se passariam dois anos até que Ernesto conseguisse reencontrar o amigo. Convidado para fazer uma apresentação na TV Record, na Avenida Miruna, estava nos corredores da emissora quando apareceu Adoniran Barbosa. Os dois se abraçaram e Adoniran perguntou: - Arnesto, você gostou do samba que eu fiz pra você? - Se gostei? Você quase me abriu ao meio de emoção. - Então, me dá um abraço, que você é meu cumpadre. Os dois se abraçaram novamente, mas Ernesto não deixou de reclamar: - Mas você me deixou mal com essa história de dizer que eu dei mancada, que deveria ter deixado um recado na porta. Todo mundo me cobra isso. Adoniran puxou o amigo pelo braço, deu uma piscada: - Arnesto, segura essa: se não tinha mancada, não tinha samba. Adoniran voltaria a emocionar o amigo doze anos depois, no programa Clube dos Artistas, comandado por Ayrton Rodrigues, na TV Tupi, quando lhe entregou autografada a partitura original do "Samba do Arnesto". O violão espanhol comprado em 1930 na Loja Salmeron, ali ao lado da Praça da Sé, e que deu origem a toda essa história, ainda está guardado - em perfeito estado - num canto da sala. E é a ele que recorre para dedilhar alguma música, quando bate aquela vontade de lembrar um pouquinho do passado. (pesquisado por Tim Teixeira) e-mail do autor: p.nastri@yahoo.com.br |
|
:: COMENTÁRIOS :: Como é importante se ouvir historia assim. Principalmente, para quem gosta de musica e seu detalhes. Parabnes Aloisio [ Enviado em 24/2/2010 por Aloisio Nogueira Alves ] Parabens, Nastri. laruccia [ Enviado em 14/10/2008 por Modesto Laruccia ] Leio tudo referente ao Adoniram. Adradeço termos no site,escritores como você Nastri,como o Mario Lopomo e o Clesio, que sempre nos trazem informações importantíssimas sobre nosso Grande Ídolo. Um abraço / Barnadete [ Enviado em 13/10/2008 por Bernadete P Souza ] Adorei saber um pouco desta musica que tambem faz parte da historia de Sao Paulo.Mais uma que nao sabia. [ Enviado em 13/10/2008 por Etel Buss ] Pedro,que bela homenagerm pelos 130 anos do BIXIGA,neste mes de outubro,com o ídolo ADONIRAN BARBOSA,REPRESENTANTE LEGAL DO BAIRRO,que homenageado está com uma Rua com seu nome,justa homenagem da Camara Municipal,fica localizada ao lado da Pça.Perola Byington.OK. Parabens pelo texto e pelo BRAZ,aqui lembrado pela Rua Flora,bairro que nasci.Abraços-Domingos R.Chiappetta [ Enviado em 13/10/2008 por domingosricardochiappetta ] Pedro do céu! Que maravilha de texto! Eu sempre adorei essa música, já escrevi também nesse site sobre o nosso Adoniran, mas o teu trabalho foi genial. Meus sinceros parabéns! O Mário Lopomo já tinha me dito que tinha a foto do Arnesto e eu pedi para ele por e-mail... mas acho que ele se esqueceu de me enviar. Vou pedir de novo. Um grande abraço, com muita consideração, Vera Moratta. [ Enviado em 11/10/2008 por Vera Moratta ] Grande Adoniram! Nastri que bom você ter comentado essa linda história...Parabéns!... Adoniram simples e puro está vivo em nossos corações. Um grande abraço. [ Enviado em 11/10/2008 por mary clair peron ] Nastri: Acompanhei a carreira do João Rubinato desde quando ele encarnava o "Charutinho" até a sua morte e ele sempre foi um dos meus ídolos musicais, porem não entendera o porquê de tanta popularidade, afinal o Trem das onze foi campeão do carnaval.....carioca, recentemente em pesquisa da Globo, no programa do Faustão, foi eleito o melhor samba. Muito bem, há alguns minutos quando lia a asua cronica escutava "Cartola" que se vivo fosse, teria completado ontem 100 anos, aí então eu entendi porque Cartola, Nelson Cavaquinho, Chico Buarque, Paulo Vanzolini e ADONIRAM BARBOSA, alem de outros, resistem ao tempo: Eles falam ao coração dos simples. Eu moro em Cabedelo-Pb e todas as sextas Feiras eu vou ao Shopping Caiçara, em João Pessoa, assistir a apresentação do Clube do Choro, um excelente grupo de serestas, e todas as semanas eu vejo o publico, em sua maioria paraibano, vibrar com as musicas do Adoniram, como se eles conhecessem a Mooca, o Bixiga, o Bras, o Jaçanã. Aí, eu ouço o verso do Adoniram: "Minha maloca a mais linda deste mundo ofereço aos vagabundos que não tem onde dormir" e eu entendo que os grandes cantam o amor ao povo simples que constitui o nosso Brasil. um abraço [ Enviado em 11/10/2008 por Antonio Souto ] Linda a historia! Parabens para o Adoniran Barbosa que nos conquistou com suas musicas e para o inspirador Arnesto. Nastri muito bom conhecer um pouquinho da historia, parabéns pra vc tb, um beijo. [ Enviado em 10/10/2008 por margarida p peramezza ] Belissima História Pedro,mas infelizmente parece que o velho Ernesto faleceu.Irei confirmar com o pessoal da AmoAmooca e depois te informo.De qualquer maneira deixará saudades e orgulho e muita emoção. abs. Rubens [ Enviado em 10/10/2008 por Rubens Ramon Romero ] Parabéns Nastri belo texto. [ Enviado em 10/10/2008 por Clesio de Luca ] Essa historia é real e eu já tinha pesquisado também. Porem o que ai esta escrito tem coisas que não tinha na minha pesquisa. Bonita historia essa do Arnesto. Digo do Ernesto. (Nastri tenho a foto dele) Outro cara que gostaria de conhecer (será que está vivo?) é o Nicola. Nome que aparece na letra da musica "samba do bixiga" Nicola foi parceiro de Adoniran, mas não gostava dever seu nome vinculado ao selo de um disco. Então Adoniran resolveu escrever ao contrario. E em alguns discos aparece Alocin, como co-autor. Se você ler ao contrario vê no que dá. Esse Adoniran era um gênio mesmo. [ Enviado em 10/10/2008 por Mário Lopomo ] |