:: Grupo Escolar Rodrigues Alves e minhas professoras ::Categoria: Personagens Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto | história publicada em 10/3/2010
Nós sempre guardamos em um lugar muito especial de nossos arquivos neuronais as lembranças de nossa infância. Claro que são boas lembranças e nem poderia ser de outra maneira, pois a infância é o melhor tempo de nossas vidas: as brincadeiras, as correrias, o futebolzinho, os “arranca-rabos” com os amigos da mesma idade e a escola, principalmente a escola.
Entrei pela primeira vez numa escola em 1948, deveria ter entrado um ano antes, em 1947, mas, por uma burocracia da época foi preciso esperar um ano para começar oficialmente os meus estudos em razão de qualquer coisa relativa à data de nascimento ou coisa parecida. Meus pais tentaram me matricular no "G. E. Maria José" que ficava a três quarteirões de casa, mas não foi possível, barraram na questão da data de nascimento. No ano seguinte voltaram, mas as vagas haviam se esgotado quase que instantaneamente e eles ficariam a ver navios se não fosse uma funcionária do Grupo Escolar que conseguiu uma vaga para mim no Rodrigues Alves com um simples telefonema. Bendito seja o falecido Graham Bell, que Deus o tenha! O Rodrigues Alves, para quem não conhece, fica na Av. Paulista, em frente ao Hospital Santa Catarina a uns 300m da Praça Oswaldo Cruz, uma boa caminhada de minha casa até lá. Bonde? Nem pensem nisso! 500 réis a passagem, 1.000 réis ida e volta, uns 20.000 réis por mês, um dinheirão numa época em que meu pai ia trabalhar a pé, do Bixiga até o palácio dos Campos Elíseos e de lá para um outro emprego na antiga SPR, (E.F. Santos à Jundiaí) na Barra Funda, para economizar uns tostões e, quase sempre, por não ter dinheiro, mesmo... Voltemos ao tema proposto. Minha primeira professora chamava-se Ludovina L. Betiol, uma mulher baixinha, de voz forte, que dominava toda a classe. Dna Ludovina sabia ser simpática e enérgica ao mesmo tempo (vez ou outra escapava um tapa no cocuruto de alguém, mas, diga-se de passagem, ninguém morreu por causa disso nem se traumatizou a ponto de se tornar um "serial killer") e ela nos fazia ler e "cantar" a 1ª lição da Cartilha Sodré: "A pata nada - pata, pá, nada, na...”, repetíamos a tabuada em coro: - dois "veis" um? Dois; - dois "veis" dois? Quatro; - dois "veis" "treis"? Seis... e desenhávamos o mapa de São Paulo e o do Brasil em nossos caderninhos de desenho. Creiam! Tínhamos nota por isso. Em 1948 me aconteceram algumas coisas não muito agradáveis: fiquei afastado das aulas por 30 dias com a desgraçada da caxumba (-“Não pode ir para aula, menino! Tem que ficar de resguardo...”); o dentista visitante me arrancou quase todos os dentes; comecei a usar óculos, pois eu era tão vesgo que quando chorava as lágrimas se encontravam na ponta do nariz, meu tio Mané me gozava. Lembro-me que fiz os exames oftalmológicos numa clínica do Estado que ficava num casarão da Rua da Consolação, em frente ao Cine Odeon... Saudades de Dna Ludovina... No segundo ano minha professora foi Dna Amélia Marrey, irmã do grande Marrey Jr. Assim como Dna Ludovina, Dna Amélia era uma excelente mestra. Com ela aprendemos História do Brasil, Geografia, Ciências, Português e Aritmética. No início das aulas cantávamos os hinos oficiais, o Hino Nacional, o Hino da Independência, o Hino da República e, acreditem ou não, alguns sambas-exaltação: "Este Brasil, tão grande e amado, é meu país idolatrado, terra do amor e promissão..." Dna Amélia era uma senhora já de bastante idade, os cabelos branquíssimos, um sorriso encantador, cantava muito bem, um doce... No Terceiro ano as aulas eram ministradas por Dna Elza Gasparini, uma figuraça... Chegava num tremendo carrão azul, creio que um Buick, com motorista uniformizado, de quepe e tudo mais, que saía para lhe abrir a porta do carro e a acompanhava até a sala de aula, levando seus livros e papéis... Seu nome e fotografias saiam nos jornais da cidade, na A Gazeta, no Correio Paulistano, no Estadão e no Diário de S. Paulo. Ela era uma espécie de líder em campanhas de benemerência e caridade, tinha algum cargo nos Sanatorinhos. Nosso aprendizado continuava a todo vapor. O Estado distribuía, para os alunos, livretos que versavam sobre as matérias do programa. Tínhamos noções básicas de anatomia humana, botânica, geografia geral, história do Brasil e entre outras mais. Juro por tudo quanto é sagrado que não estou mentindo. Voltando a falar da Dna Elza, eu lhe pergunto: alguma mulher com posição e situação financeira da profª. Elza se abalaria a dar aulas para uns pirralhos do Bixiga e adjacências nos dias de hoje? Será?... Dna Elza, que saudades... No quarto ano tive aulas com Dna Maria de Lourdes Vianna Bohn, professora de altíssimo nível que arrematou o trabalho das mestras anteriores. Vez em quando ela trazia seu filho, um menino de nossa idade, para assistir aula conosco. Seu nome era Djalma e ele era muito irrequieto e muito inteligente... Fico pensando se o Djalma Bohn, aquele do PT, não seria filho de Dna Maria de Lourdes... Bem, paro por aqui. Meu sincero agradecimento pelo que essas mulheres fizeram por mim e por milhares de alunos que tiveram a honra de passar por suas mãos... Meu beijo agradecido! E-mail do autor: ignacio.netto@bol.com.br |
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:: COMENTÁRIOS :: Estudei lá, saí em 45, mas lembro-me dos nomes e quero acrescentar o da Prof. Hercília Veloso, alta ,bonita, ólhos azuis e, com a régua na mão, um terror, mas muito competente.Também andava muito para chegar. Lembra-se do machadinho o que vendia puxa-puxa no portão?Vou lembrar outras e entro em contato pelo email. G S [ Enviado em 1/8/2010 por gilberto Sereno - gilbertosereno@gmail.com ] Adorei sua história real sobre o Grupo Escolar Rodrigues Alves e suas professoras.Belo relato de memórias,também estudei ali no ano de 1966 e tenho gratas recordações.Parabéns! [ Enviado em 21/3/2010 por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - anamarisribeiro@ig.com.br ] Nesta sua saborosa e saudosa crônica você traçou um retrato fiel do nosso ensino. D.João VI criou em primeiro lugar, ao vir para o Brasil, o ensino superior porque assim pessoas altamente gabaritadas poderiam formar novas ~gerações, o que não ocorre hoje em dia." Neguinho" que não vai prá frente nos estudos é mandado fazer mais um ano de ensino médio e sair dando aulas para a meninada.Saudade das antigas e rígidas escolas normais que formavam professores de fato e de direito.Cada um dá o que tem [ Enviado em 16/3/2010 por trini pantiga - trinesp@ig.com.br ] Ignacio,uma bela e merecida homenagem a essas dedicadas professoras.Também tenho saudades das minhas. Um abraço. [ Enviado em 15/3/2010 por Bernadete P Souza - bernadete.pedroso@gmail.com ] Por favor, por um lapsus memoriae imperdoavel troquei o nome de minha professora do 3º ano. Onde escrevi ELZA GASPARINI, leiam ELVIRA GASPARINI. Dna. Elvira, onde estiver, um milhão de desculpas... é a idade que vem chegando celeremente. Seu aluno Ignacio. [ Enviado em 13/3/2010 por joaquim ignacio de souza netto - ignacio.netto@bol.com.br ] Que felicidade poder ser afalbetizado por tão dedicadas mestras...O carinho que passou no comentário foi maravilhoso.Também tive minhas dedicadas mestras e escritoras que fizeram a minha vida, só que no meu querido bairro do Brás Parabéns por ter a memória tão presente... Parabéns por não ter esquecido dessas mulheres...Parabéns pela homenagem Deus te ilumine. Um grande abraço. [ Enviado em 12/3/2010 por mary clair - clairperon@hotmail.com ] Ignáci, não estudei no Rodrigues Alves, muito menos no Maria José. Mas sou do Bixiga e estive sempred rodeado por essas instituições de ensino. Aliás, no Rodrigues Alves, dancei uma quadrilha de festa junina. Assim como você, devo muitgo às minhas queridsas mestras do Colégio Santa Monica. Gostei mnuito do qaue li. [ Enviado em 12/3/2010 por Miguel - misagaxa@terra.com.br ] Ignacio, Bela homenagem às queridas mestras, que com tanto empenho nos ensinaram o b-a-ba,a contar e a cantar. Parabéns. Alaíde [ Enviado em 11/3/2010 por Alaíde Santos - alaide.santos2010@hotmail.com ] Seja lá o que for, onde, quando, com quem, não importa, recordações dos primeiros anos de escola são insubestituiveis. Parabéns, Joaquim. Laruccia [ Enviado em 11/3/2010 por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com ] Amigo, tambem estudei no Rodrigues Alves, em outra época .Tambem me lembro bem das professoras, dona Ida Correia Porto, que me fazia medo, dona Yolanda, dona Ludmilla Mellow. [ Enviado em 10/3/2010 por lygia - lymms7@hotmail.com ] Caramba, que espantosa memória, Ignacio ! A minha não é pouca, mas nem de leve lembro do nome da professorinha que me ensinou o beabá...na verdade, quando entrei no grupo escolar, já sabia ler correntemente. Não sabia é escrever, mas logo peguei o jeitão. Abraços. [ Enviado em 10/3/2010 por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br ] Sr Joaquim que resgate hem!!!!!!! nossa achei lindo o sr lembrar os nomes das professoras também lembro de algumas minhas como d.Olga minha 1ª professora (bravaaaaaaaaa) [ Enviado em 10/3/2010 por Marina - madelmoro@gmail.com ] Ignacio (Não se perca pelo nome) rsrs. Achei muito engraçado sua historia escolar. Alias parecida com a minha que também comecei em 1947, e tive que ser reprovado por não poder fazer o exame final, devido ao sarampo. Pouco diferente do seu problema Caxumba. Tambem levei uns coques no cocuruto. Achei muito engraçado o,... dois "veis" um? Dois; - dois "veis" dois? Quatro; - dois "veis" "treis"? Seis... Era isso mesmo. Tambem desenhava o mapa do Brasil e nas capas dos cadernos geralmente de cor verde, tinha o hino nacional, da independência e da bandeira. De tanto ler aqueles hinos sei de cor até hoje. [ Enviado em 10/3/2010 por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br ] |